Leitoras com Swag

Hey garotas, beliebers ou não beliebers. Só estava faltando você aqui! Nesse blog, eu, Isabelle, faço IMAGINE BELIEBERS/ FANFICS. Desde o começo venho avisar que não terá partes hots nas Fics, em nenhuma. Repito, eu faço 'Imagine Belieber' não Imagine belieber Hot. A opinião da autora - Eu, Isabelle - não será mudada. Ficarei grata se vocês conversarem comigo e todas são bem vindas aqui no blog. Deixem o twitter pra eu poder seguir vocês e mais. Aqui a retardatice e a loucura é comum, então não liguem. Entrem e façam a festa.
" O amor não vem de beijos quentes. Nem de amassos apertados. Ele vem das pequenas e carinhosas atitudes."- Deixa Acontecer Naturalmente Facebook.
Lembrem-se disso. Boa leitura :)

Com amor, Isabelle.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

One Love 13

— Eu não sei do que você está falando — aleguei imediatamente, desenroscando minha bolsa e me colando em pé devagar, sem tirar os olhos de sua postura.
Maya esticou o lábio num sorriso de deboche acusatório.
— Por isso está fugindo de mim?
Coloquei a bolsa atravessada na frente do meu corpo. Seria patético usá-la como arma, mas eu o faria se precisasse. Eu não conseguira lutar contra Annelise, e não planejava deixar o fato se repetir com Maya. Invoquei todo o meu conhecimento — raso — de Krav Maga, premeditando os primeiros golpes. Sua arma de fogo não estava à vista, assim, ela levaria alguns segundos para conseguir pegá-la, o que já me deixava em vantagem.
— Você também fugiria de você mesma se pudesse se ver agora. Sei que não vai me ouvir, já está convencida dessas besteiras que está pensando — menti descaradamente.
Dessa vez ela não caiu, os olhos fervendo de ódio a motivando em dar um passo na minha direção. Recuei, separando os pés, posicionando a perna esquerda à frente.
— Para de mentir pra mim! As crianças desapareceram depois que te levei em um tour idiota pela Companhia. George quis saber se alguém diferente havia passado por lá. Eu tive que cobrir nossos rastros com alguns favores, acabei descobrindo que perguntou para Max sobre uma ala infantil. Sabe o que ele me cobrou para esquecer isso?! E depois George estava falando de você com uma das funcionárias, mandando que ela investigasse se você tinha algum envolvimento nisso. Aquilo está um inferno! E não é uma terrível coincidência! — ela fechou as mãos em punho, elevando a voz — Agora me diga, aonde eles estão?
Minha morte estava terrivelmente próxima, todas as cordas imagináveis se enrolavam em meu pescoço. A única coisa que eu podia fazer era adiar o evento. Os resultados seriam os mesmos. Hoje, amanhã, ou semana que vem.
— Maya, você não está pensando direito — levantei minhas mãos em rendição, persuasiva.
— Se você não me disser por bem, será por mal.
Maya avançou. Talvez pela aula de Krav Maga ter sido no mesmo dia, ou Maya não ter treinado especificamente para lutas corporais, tive facilidade em lhe dar um dos golpes que memorizei. Mantive os joelhos flexionados para ter mobilidade, fechei os punhos e trouxe o cotovelo direito para perto do corpo, o qual virei levemente para a direita; girei o torso até ficar de frente para ela, enrijeci o corpo e respirei regularmente, potencializando o soco. Mirei no meio da mandíbula, utilizando a forma sideswipe, atingindo-a pela lateral, forçando sua cabeça para o lado para que seu cérebro quicasse nas paredes do crânio, provocando a inconsciência. Ela caiu como um saco de batatas no chão. Simples assim. Fiquei ainda em posição de ataque por alguns segundos para garantir de que não acordaria. Depois, num impulso incontrolável, corri em direção à saída, não pensando o suficiente para procurar alguma arma nela que a colocasse em vantagem quando acordasse.
Embora minhas pernas estivessem trêmulas, fosse por esforço ou medo, encontrei um instante breve para me sentir orgulhosa de mim mesma. Tive vontade de voltar e tirar uma foto para apresentar ao meu professor, Caitlin e Ryan, o meu feito. Frágil é uma ova.
Passei atrás da máquina de validação do estacionamento ofegando. Maya não ficaria desacordada para sempre, então redobrei minhas forças, me impelindo pela rampa em direção ao fenômeno do sol largando seu turno no dia para ceder espaço à lua. Havia um ponto em frente ao shopping, e mesmo sem saber qual o destino do ônibus prestes a sair — ou se tinha dinheiro suficiente na bolsa para pagar a passagem — agitei os braços acima da cabeça, tentando dar sinal ao motorista para que parasse.
No meio da minha corrida desesperada, me sobressaltei com a manobra de um porshe preto estacionando muito próximo ao meio fio sem que desligasse o motor. A porta do carona se abriu e a voz ordenou:
— Entra!
Minha paralisia esperançosamente gelada se prolongou até que Ryan se inclinasse sobre o câmbio na minha direção.
— O que está esperando, Evans?!
Pulei para o banco instantaneamente. Ryan mal me esperou fechar a porta para cantar pneus.
— O que porra...? — ele começou a perguntar, a irritação saindo por seus poros.
Era exatamente o que se passava na minha cabeça. Eu estava duplamente fodida. 
Minha mão posicionada no meio do peito acompanhava todo o trabalho que meu corpo tinha para tentar regularizar minha respiração. Isso indicava minha proximidade com o sedentarismo, o que não era muito bom para uma pessoa efetivamente correndo da morte.
— Como conseguiu esse carro? — devolvi com minha própria dúvida. Precisava mesmo ser um Porshe preto? Ryan ainda não comprara um carro porque estava economizando para um que o agradasse, mas eu sabia que não poderia ter conseguido tanto dinheiro assim até agora.
— Nós conversamos sobre seu trabalho, não um passeio no shopping! — bradou.
— Como soube que eu estava aqui?
Ele bateu a mão no volante seguidas vezes. Estava declarado, eu preferia seu espírito despreocupado.
— Caralho, Faith.
Antes que eu o pressionasse para dar algum sentido à tudo aquilo, pensei em Rafael sozinho no shopping, e me perguntei se Maya seria capaz de lhe fazer algum mal.
— Precisamos conversar — Ryan disse incisivo.
como precisávamos.
Disquei o número de Hazel, colocando o celular na orelha. No terceiro toque, ela atendeu doce como um limão.
— Me passa o número de Rafael, por favor? — esforcei-me para ser educada, e mesmo assim, pareci forçada.
— Você não deveria estar com ele? Já deu um jeito de estragar tudo?
Apertei a ponte do nariz, engolindo a vontade de mandá-la para a casa do caralho.
— Nos perdemos. Você tem o número ou não?
Hazel resmungou alguma coisa que fiz questão de não ouvir, e me disse que passaria por mensagem. Sem uma despedida — a qual eu já não esperava — desligou. A que ponto eu cheguei para suportar gente como ela? Mais um ponto positivo de ir para Boston e me livrar desse estrume.
Por estar interessada nos frutos dessa relação, Hazel me enviou o número imediatamente. Assim, mandei uma mensagem explicativa para Rafael. Inventei a desculpa de que uma amiga estava passando mal e tive que correr para ajudar. Não podia ser inteiramente mentira, para todos os efeitos, Maya era minha amiga, e não parecia mesmo estar bem.
— Tenho sua atenção agora? — Ryan perguntou impaciente.
— E você vai me responder?
O carro fez uma curva brusca, me jogando contra a porta.
— Coloque o cinto!
Lhe olhei exasperada enquanto obedecia o comando. Não para ser submissa à sua ordem, apenas porque eu precisava me manter viva um pouco mais. 
— Caramba, o que há com você hoje?!
— Era a assistente de George atrás de você, não era?
Triplamente fodida.
Quanto eu podia dizer sem me comprometer? Ryan me mataria se descobrisse minha verdadeira motivação em mudar para Minneapolis. Decidi protelar.
— Como sabia onde me encontrar, Ryan? E que carro é esse?
Ele respirou fundo, misturando o ato com um arfar ruidoso.
— Aluguei um carro e Caitlin me contou. Satisfeita?
Atentei-me ao seu rosto, pronta para identificar emoções submergidas.
— Não contei para Caitlin que estaria no shopping.
Seu maxilar travou. Eu o pegara na mentira.
Semicerrei os olhos.
— Por que está mentindo para mim, Butler?
— Agora você quer falar de mentiras? Você que começou primeiro.
Quadruplamente fodida.
Cogitei a quais mentiras ele se referia. Ryan não podia ter descoberto tudo. Eu estava sendo bastante cuidadosa. Pelo menos pensava que sim. Não devia ser nada demais. Eu apenas acabaria me entregando se entrasse em desespero. Desviei os olhos para a rua, e assim me atentei às placas. Nos distanciávamos cada vez mais do centro.
— Aonde estamos indo?
Ele não me respondeu, pegou uma estrada solitária à esquerda, quase deslocada demais para estar ali. Árvores altas nos ladearam, abrindo um túnel interminável; a proximidade do verão deixava os galhos cheios de folhas vivas, e eu tinha certeza que aquela vista era muito bonita pela manhã. No momento, entretanto, me dava certa inquietação.
— Ryan!
— Para uma cabana! Não vamos voltar para o apartamento. Não é seguro.
Meu queixo caiu.
— E minhas coisas? Que cabana é essa?
As rugas na testa de Ryan se aprofundaram. Ele olhou pelo retrovisor ao dizer baixo:
— Às vezes eu mesmo quero te dar um tiro na testa.
Indignei-me, cruzando os braços. Preferia ardentemente ter conseguido pegar aquele ônibus sabe-se-lá-para-onde. Sempre vi Ryan com um espírito muito tranquilo para considerá-lo como parte da Companhia Bieber, ele não se enquadrava nas características tenebrosas que os outros possuíam, nem mesmo com Justin eu podia assimilá-lo. Contudo, sua atitude atual confrontava meus pensamentos, eu conseguia distinguir as semelhanças claramente agora. Manipuladores, controladores, obsessivos, egocêntricos e mesquinhos.
— Eu não vou a lugar algum com você. Pare o carro — exigi devagar.
Seus olhos azuis queimaram em minha direção.
— Faith, Caitlin já está lá, e sozinha, não temos tempo para uma discussão. A não ser que você queira brigar durante meia hora e deixá-la assustada no meio do nada.
 Ofendi-o mentalmente por aquele golpe baixo, e cedi de forma tácita. Eu iria com ele até onde Caitlin estava, depois daria meus pulos para voltar ao centro e partiria para Boston às onze da noite. Não havia uma alma viva capaz de me fazer mudar de ideia. Então, fiz voto de silêncio até chegarmos ao nosso destino, e Ryan parecia ter feito o mesmo. A tensão no ar carregava todas as mentiras existentes entre nós, prestes a desabar em nossas cabeças.
O percurso prosseguiu por mais vinte minutos, a paisagem se tornava cada vez mais verde e marrom. Eu não via como aquilo podia ajudar. Um lugar isolado era perfeito para a realização de um crime. Annelise me receberia em uma bandeja de prata. Conforme a escuridão da noite caía sobre nós, a estrada se tornava mais sinuosa, sem pavimentação, visível apenas pelos faróis do carro, serpentava pelas árvores antigas cada vez mais próximas. Pensei que o caminho terminaria e seríamos engolidos pela floresta quando enxerguei a pequena clareira à frente. A iluminação ganhou reforço com o brilho emanando das janelas da cabana. Imaginei que fosse recém construída ou recebera uma reforma recentemente, a madeira de sustentação não me parecia tão velha quanto o esperado.
Ryan parou o carro na frente da porta, e eu desci pisando fundo, ultrapassei os três degraus da varanda em um segundo. Tentei abrir o trinco da porta, e não obtive êxito. Depois de colocar a cara na janela entre as cortinas, Caitlin abriu. Eu entrei como um furacão, meus pés faziam barulho no piso laminado, e parei no meio da sala que portava um sofá de couro preto e a mesa de centro. Pinturas de paisagens naturais se intercalavam nas paredes, e a lareira rústica de tijolos avermelhados estava apagada.
— Se vocês não chegassem em cinco minutos eu ficaria louca — Caitlin suspirou aliviada.
Virei-me para encarar Ryan. Ele fechou a porta atrás de si, carrancudo.
— Você tem exatamente duas horas para me convencer a não ir para Boston. Acrescente a isso algumas explicações.
Ele negou com a cabeça, apontando um dedo na minha cara.
— Primeiro você tem que me contar o que fazia na Companhia sábado de manhã! O que você está bebendo, Faith Evans?!
Elevei meu queixo, fazendo o possível para não derrubar minha dignidade. Se ele sabia disso, o que mais podia saber? E se sabia, andava me espionando?
— Eu estava sendo útil! E como você também sabe disso?!
— Um passarinho verde me contou!
Fuzilei-o com os olhos pelo deboche desnecessário, e então, Caitlin entrou no meio, literalmente, as mãos estendidas como se apartasse uma briga.
— Vocês dois podem parar com isso? Primeiro de tudo, abaixem o tom de voz, respirem fundo, e alguém me explica o que está acontecendo.
— Ele está me escondendo coisas. Odeio mistérios — disse eu, cheia de razão e fúria.
Ryan bufou.
— Olha quem diz! A garota que nos passou a perna por cinco meses! Eu sei que não viemos justo para Minneapolis por um capricho do destino.
Quintuplamente fodida.
Caitlin se virou para mim.
— Faith, do que ele está falando?
— Conte pra ela no que você tem gastado suas energias além de encher o rabo de bebida!
Ele sabia. Apenas queria que eu confessasse de uma vez. Minhas mentiras resolveram cair por terra no mesmo dia. Coincidência? De qualquer forma, não adiantava mais negar. Não para eles.
— Eu estava procurando os irmãos de Justin, ok?! — despejei de uma vez — E agora não vai resolver nada porque até mesmo George os perdeu de vista! Pensei que eles estavam aqui, mas descobri que estão em Boston! Então tenho que voltar imediatamente para encontrá-los! É minha responsabilidade fazer isso! Eu devo ao Justin.
Ryan e Caitlin eram as pessoas em quem eu mais confiava ultimamente, portanto, dizer aquilo, finalmente, foi como tirar um peso enorme de minhas costas. Não percebia que me incomodava em omitir até jogar tudo na mesa. Mesmo que isso me deixasse mais fodida do que uma prostituta.
Esperei o veredicto.
— Irmãos? — Caitlin perguntou baixinho.
Ryan desviou o rosto, amenizando a expressão.
— Nós não vamos voltar para Boston — ele disse firme.
Discordei.
— Você não está entendendo. Eu vou voltar. Só quis informar vocês porquê da última vez que fugi não deu muito certo — despropositalmente, finalizei a sentença com menos força do que planejava.
— Você disse que eu podia te convencer do contrário, e eu tenho um plano. Ouça — pediu quando fiz menção de interromper — Annelise está sendo distraída nesse exato momento para que pudéssemos te trazer aqui. Vamos conseguir arrancar dela o nome do contratante e dar um jeito nele de uma vez por todas. Ela não tem como te incriminar de alguma coisa, Faith, só tem teorias loucas que até mesmo George dúvida. E então, quando dermos um jeito nisso, você pode sair daqui. Pode voltar para Boston se quiser, ou qualquer outro lugar. Ela nunca mais vai te perturbar, nem ninguém da Companhia Bieber.
Dei um passo para trás, ainda sem me convencer.
— Distraída? Agora você sabe que não quero ir para Boston só para fugir de Annelise. Tenho que encontrar... — minha boca se fechou enquanto meu cérebro trabalhava. Eu tinha que encontrar quatro crianças, todas desaparecidas no sábado, aparentemente. Maxon e Yasmin, Jaxon e Jazmyn. Várias teorias de conspiração ocuparam todo o espaço disponível em meus neurônios. Por suspeitar do meu envolvimento, George podia ter sequestrado Maxon e Yasmin ao saber do sumiço de seus netos para usá-los contra mim. Ou então.... Quão ridículo era os nomes serem tão parecidos? No material conseguido ano passado — que eu não sabia onde fora parar —, constava que Jaxon tinha sete anos e Jazmyn nove. Yasmin e Maxon não podiam ser muito mais velhos do que isso. 
Recusei-me a concluir o pensamento, essa era a hipótese mais absurda que eu já criara. Uma simples ilusão otimista demais para que eu resolvesse dois problemas com apenas uma solução. Hipótese esta que me dava embrulhos no estômago só de pensar. Se assim fosse, Justin e eu convivemos com eles o tempo todo, principalmente eu. E era impossível esquecer o quanto Maxon havia se dado bem com Justin, de forma que até lhe enviasse um desenho através de mim. Esforçando-me, eu até podia listar algumas semelhanças físicas entre eles.
Parei por aí, evitando que entrasse em colapso.
—... Você me ouviu? — Ryan passou a mão na frente do meu rosto.
Pisquei, voltando ao momento presente. Caitlin permanecia com a expressão de espanto, e não pude deixar de fora o quanto era estranho Ryan saber de Jaxon e Jazmyn. Pelo que eu sabia, Justin apenas compartilhara comigo esse segredo. Como ele estava descobrindo todas essas coisas de repente?
— O que disse?
— Você não precisa voltar pra lá, porque fui eu que os peguei. 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

One Love 12

Ryan andava de um lado para o outro, completamente perturbado, ele estava naquele circuito desde a hora em que chegamos em casa; eu já havia tomado banho, comido um lanche natural, e sua maratona não chegara ao fim. Alarmado por uma mensagem de Caitlin sobre minha visita noturna, fora nos encontrar na escola de Krav Maga. Normalmente, seu turno terminava às quatro, então àquela hora ele ainda estaria dormindo. Seus olhos estavam fundos e loucos, me deixando na dúvida de que realmente dormira. Depois da visita de Annelise, não consegui dormir novamente, mas não achei ideal chamá-lo, não podia ter certeza de que ela não voltaria, e não arriscaria que descobrisse Ryan vivo. No fim, eu estava certa em tomar aquela decisão. Ryan era o cara mais despreocupado do mundo, e agora estava praticamente subindo de nervoso pelas paredes.
Coloquei as mãos na cintura com um ruído, exasperada.
— Ryan!
Ele me olhou, despertando do transe. Caitlin batucava os dedos na perna, observando a cena do sofá.
— Você não precisa ficar nervosa, Faith. Vamos cuidar disso — e então seus olhos pararam no meu braço. Eu havia tirado a faixa para tomar banho e ainda não colocara de volta — Ela começou a contagem?! — ele quase gritou, ficando pálido.
Eu nunca o vira assim. Quando estávamos prestes a morrer ano passado, ele ria. Sua reação estava triplicando meu nervosismo. Como se não bastasse ter tanta coisa para me preocupar, Maxon e Yasmin estavam desaparecidos, umas das minhas crianças preferidas no orfanato, embora eu não tivesse feito propositalmente uma classificação. Há dois anos eu visitava o orfanato, e desde o primeiro dia eles estavam lá. Caleb me dissera que sumiram no sábado à noite, e que os Evans estavam dispostos a ajudar como pudessem. Seria possível o mundo me decepcionar mais? Depois de mais esse golpe, formei minha decisão.
— Temos que voltar para Boston.
Ryan negou quase que imediatamente.
— Você não conhece Annelise, ela não vai te perder de vista. Não vai permitir que você vá embora.
— Não vou deixar que ela dite o modo como vivo minha vida. Além do mais, duas das crianças do orfanato que eu visitava estão desaparecidas, eu tenho que ajudar de alguma forma.
A maratona de Ryan recomeçou.
— Você tem que se ajudar primeiro. Se ela te marcou com a contagem, quer dizer que com certeza está com um contrato seu. Quem sabe um proposto pelo próprio George?
Passei as mãos no rosto, como se quando abrisse os olhos de novo tudo estaria acabado. Não achava que fosse possível escapar da morte duas vezes seguidas. Justin contrariara o destino ao me salvar, e essa era a forma do mundo de colocar tudo de volta nos eixos. Eu não deixaria ninguém ir no meu lugar outra vez, mas não podia ir agora.
— Quanto tempo dura a contagem dela? E o que acontece quando acaba?
— O tanto de tempo que ela ganhou para concluir o serviço. A cada encontro que tem com você, é uma marca. E acho que já sabe o que acontece quando o tempo acaba.
Engoli em seco. Viver não tinha mais muito sentido, mas morrer pelas mãos de Annelise não devia ser muito agradável. Eu podia ter uma ideia da criatividade que ela tinha para isso. E aposto que seria mais engenhosa para mim. Ela me odiava.
— Vocês não podem ficar comigo. Se ela achar você, Ryan, acabou. E vai acabar suspeitando de Caitlin. Vocês têm que ficar longe de mim.
Ryan me encarou com irritação por um segundo, depois desistiu e voltou a se concentrar nos seus pensamentos. Eu continuei:
— Eu vou para Boston e vocês ficam aqui, e então dou meu jeito. Vocês não são responsáveis por mim. Ela não suspeita do seu envolvimento.
— Faith, fecha a matraca, eu estou pensando.
Respirei fundo, lhe dando as costas e falando por cima do ombro:
— Tudo bem, pense. Enquanto isso, vou para a galeria. Supere minha ideia, ou depois do expediente, estarei em Boston.
— Você não pode ir simplesmente trabalhar! — ele protestou quando cheguei a porta.
— Preciso do dinheiro para pagar minha passagem — respondi, voando pelo corredor.
Minha carga horária se iniciava às uma da tarde. Eu não estava atrasada, mas não ficaria naquele cubículo de pavor. Ryan precisava de espaço para pensar, pois bem, eu também. E alguma coisa me dizia que Annelise não me procuraria tão cedo. Pelo menos não até completarem-se 24 horas do nosso último encontro. Ela gostava dessa espera de tortura. Só não entendia porque não me marcara desde que nos vimos no restaurante. Não que eu estivesse reclamando.
Ryan também parecia pensar o mesmo que eu, ele não viera atrás de mim, então pude passar a tarde toda com meus pensamentos, os quadros, e clientes. Clientes parcialmente insatisfeitos com meu atendimento meio desleixado naquele dia. Ao ver seus rostos distorcidos em uma careta, pensei seriamente em dar um mínimo escândalo. Eles não podiam reclamar por não me terem inteiramente para si, não quando eu estava ocupada demais arquitetando um plano para fugir de uma assassina, tirar das minhas costas o alvo de uma Companhia de assassinos, resgatar os irmãos do meu falecido namorado, e achar minhas duas crianças favoritas perdidas. Sentia um cansaço incapacitante só de pensar nisso.
Com todo esse histórico, não me esforcei em dar um sorriso para Rafael quando ele entrou na galeria com seu humor radiante. A força que me dera no dia anterior me deixara mesmo em dívida com ele, além do mais, fora comigo deixar Maya na casa dela, e depois me deixara na minha; porém, a culpa não era minha que minha cabeça estivesse explodindo em problemas. Seria muito útil ter uma garrafa de whisky agora, mas se nem sóbria eu estava dando conta, bêbada não sobreviveria a uma hora.
— Pensei mesmo que você ainda estaria aqui — ele se debruçou no balcão, me olhando com o sorriso de covinhas.
Não parei de girar a cadeira em meia lua, apertando minhas têmporas.
— E aonde mais eu estaria? Meu turno acaba às dez — não controlei a hostilidade na voz.
Rafael fingiu não perceber.
— Cumpri o combinado de pedir sua dispensa à Hazel. Nosso encontro está marcado para às 18:00, se lembra?
E mais essa.
Fechei os olhos, expirando.
— Você esqueceu — me acusou, brincando — Tudo bem, não estou com os sentimentos feridos. Só venha comigo e tudo estará perdoado.
— Rafael, eu não...
— Você fez uma promessa. Não me diga que é uma destruidora de promessas, Faith Evans.
Promessas. Justin havia me prometido, olhando nos meus olhos, que tudo daria certo naquele vinte de novembro. O dia mais frio que eu me lembrava de toda a minha vida. Dali três dias fariam seis meses. Eu quase não podia acreditar que conseguira chegar até ali inteira. Tecnicamente.
Rafael tocou minha bochecha, uma faísca de compaixão deixava seu rosto ameno.
— Acho que você precisa mesmo sair. Tudo ainda vai estar do mesmo jeito quando voltar. Não acha que merece se distrair um pouco?
Fui absorvida por seu olho castanho escuro, ponderando. Eu dissera à Ryan que ele tinha até o fim do meu expediente, que normalmente ia até às dez horas. Depois disso, sabia que teria uma avalanche de acontecimentos para serem realizados, e eu provavelmente não conseguiria respirar. Tinha pensado em um plano para resolver tudo com quase um ato só. E para pensar em seu andamento, não precisava necessariamente estar dentro da galeria com clientes chatos e mal-educados. Rafael não merecia sair com um morto vivo ambulante, mas ele era minha válvula de escape.
Ele não permitiu que eu fosse para o apartamento me trocar, temendo que se eu entrasse, mudasse de ideia. Isso provavelmente aconteceria, Caitlin e Ryan não me deixariam sair com Annelise no meu encalço, e eu me deixaria convencer. Ainda não estava certa de que tomara a decisão mais correta, só que eu pisquei e já estava entrando dentro do IDS Center Crystal Court, no centro de Minneapolis.
O shopping fora uma opção quando comprei o presente de Caitlin no domingo, mas encontramos um mais perto. Sua estrutura busca argumentar que a globalização e o meio ambiente ainda podem coexistir; a praça, no centro do shopping, porta diversos bancos de madeira na cor branca, cada quatro ladeando um canteiro de flores portando uma árvore no meio, distribuídos em volta de uma fonte. Várias pessoas se utilizavam do espaço, fosse para mexer no pequeno aparelho celular — agora inerente ao ser humano —, ler algum livro, ou apenas conversar. O piso em um tom de marrom lembrava mesmo a terra. O arquiteto não economizara na criatividade. Acima de nós, o teto se assemelhava a uma escada, construído em alguns degraus de cubo de vidro.
Passamos por baixo da bandeira dos Estados Unidos pendurada no teto e subimos a escada rolante. Rafael me guiou entre as lojas até chegarmos ao fundo e encontrarmos uma porta amadeirada folha dupla, protegida por duas mulheres, vestidas com saias e camisas em um tom de vinho. Com um sorriso, a morena da esquerda pegou os convites que ele as ofereceu, e a porta foi aberta para nós. Em todo o trajeto estive preocupada que seguisse mais uma das ideias estúpidas de Ryan, mas assim que entramos, suspirei de alívio.
— Vladimir Kush! — reconheci, espiando os quadros expostos nas paredes.
— É um memorial dele, achei que você gostaria de vir aqui. Foi a primeira coisa que conversamos, se lembra? Tive essa ideia completamente sozinho — ele discursou, a empolgação beirando sua voz. Pela sua análise em meu rosto, concluía que não havia mandando tão mal dessa vez.
E ele estava certo. Deleitar-me com os quadros de Vladimir sempre me trazia certa paz no espírito que nunca consegui explicar. Isso parecia ser de um milênio atrás, mas eu esperava que seu efeito ainda permanecesse em meu corpo.
— É um sorriso isso o que estou vendo? — ele perguntou, provocativo.
Lhe dei o máximo parecido com um sorriso que eu podia. Ver cérebros gigantes flutuando no oceano se assemelhava ao mais próximo de um último pedido meu antes de morrer. Já o lago em forma de olho, com um peixe servindo de pupila, não precisava estar ali. Basicamente, foi como se Annelise estivesse me encarando, dizendo que estaria onde eu estivesse. Balancei a cabeça, passando para a próxima pintura, me abraçando.
— Essa é você tentando se esconder do mundo — Rafael disse risonho, apontando.
A mulher nua se escondia atrás de um livro proporcional ao seu corpo, colocando as pernas dos dois lados dele, forçando para mantê-lo fechado.
Revirei os olhos com humor, retrucando:
— E esse é uma representação sua e de seu cérebro.
African Sonata apresenta mamutes com cabeça de instrumentos de sopro, não sabia dizer se eram trompetes ou saxofones.
Ele riu, me dando um tapinha no ombro.
— O que acha de se tornar uma dançarina de Flamenco?
Observamos juntos a dançarina de costas na ponta dos pés, uma rosa invertida lhe servia de vestido, as pétalas cobriam a cintura e as pernas, enquanto as folhas verdes serviam de mangas.
A cada tela, uma nova provocação ou um comentário divertido, e Rafael conseguiu ao menos dividir o peso em meus ombros em dois. Assim, consegui organizar todas as minhas ideias. Haviam muitas chances de dar errado. Na verdade, a possibilidade de fazer exigências à Annelise parecia absurda ao analisá-la à luz da lógica. Mas era melhor do que não tentar nada.
— O que achou?
Nós já havíamos olhado todos os quadros e saíamos do memorial levando um folder explicativo sobre as obras.
— Tenho que dizer: você finalmente acertou.
Rafael riu, colocando as mãos no bolso, o andar relaxado.
— Tenho uma ótima intuição. Deveria ter seguido ela desde o começo.
Concordei, reforçando na minha lista de afazeres a surra que daria em Ryan.
— Por exemplo, ela me diz agora que você precisa de comida. Uma pizza?
Coloquei uma mão em seu ombro, demonstrando com a expressão o quanto estava impressionada.
— Você está goleando como o Messi agora.
Rafael me abriu um sorriso largo. Voltamos para o primeiro andar e entramos na fila do Tony’s Pizza Napoletana, enxergando de longe a opção de sabores passada na televisão do estabelecimento vermelho.
— O que vai ser? — ele me perguntou, coçando a barba rala.
Naquele instante, me indaguei por que um cara como ele insistia tanto em sair com alguém como eu. Rafael tinha um rosto muito bonito, traços fortes e bem marcantes só existentes na America Latina; se fosse biologicamente possível, eu diria que seus olhos eram pretos, combinando com os cachos pequenos do cabelo; seus ombros largos e braços fortes davam a sensação de que eu estava segura ao seu lado; sem contar o fato de que sua postura confiante e despojada me deixar quase completamente à vontade. Se Hanna o visse, seria amor a primeira vista. Isso depois de me xingar por não estar colaborando nas aparentes investidas que ele dava. Eu não tinha a autoestima tão alta assim para afirmar que ele tinha interesse em mim, mas só o fato de querer a minha amizade, era estranho.
— O que foi? — disse ele risonho, captando meu olhar quando procurou o motivo de não ter recebido uma resposta minha.
Dei de ombros.
— Só estava me perguntando por que você iria embora do México. Sempre o imaginei como um pais muito divertido e agradável para se viver.
Rafael meneou a cabeça.
— Depende do ponto de vista. Mas vim para cá por causa das oportunidades. Sabe como é, o Estados Unidos é o dono do capitalismo.
— E deixou toda a sua família lá?
— Não, minha mãe, pai, e irmã, vieram comigo — seu sorriso de canto ao falar da família foi perceptível, e ele não precisou de mais incentivo — Minha irmã tem dez anos e ela foi a que mais se empolgou com a mudança. Sonha em encontrar a Katy Perry na rua algum dia desses.
Eu o acompanhei quando riu, criando uma imagem da menina em minha cabeça. Cabelos negros longos e duas covinhas profundas o suficiente para portar todos os seus sonhos.
— Eles estiveram na inauguração semana passada — me disse, esperando que eu tivesse um insight, o qual nunca aconteceria. Estive totalmente aérea naquele evento. Por um momento, pude jurar que Justin estava lá, sentia sua presença no ar, como se fosse possível apalpá-la. No próximo segundo, fui dilacerada de dentro para fora. Maldito homem que se assemelhava a ele de costas.
Acabamos optando pelo sabor Margherita, segundo o vendedor, este foi o responsável por ganhar o campeonato de mundo da pizza em Napole, na Itália. As cores dos ingredientes foram escolhidas exatamente para ilustrar a bandeira da Itália; branco representado pela mozarela de búfala, verde pelo manjericão e vermelho pelo tomate. Escolhemos a mesa redonda mais próxima ao estabelecimento e Rafael prosseguiu com o assunto de sua família.
De alguma forma, ele conseguiu abrir uma brecha nos meus problemas para que eu lhe desse atenção, talvez fosse a maneira que gesticulava com as mãos, enfatizando tudo o que a boca expelia, ou os olhos fixos que me prendiam. Eu não podia ao menos descrever o quanto era prazeroso poder distrair minha cabeça com conversas despreocupadas, nada relacionadas ao meu risco de morte, resgate de crianças, e o vazio em meu peito.
— Você não faz ideia. Mamãe faz um Guacamole que eleva seu paladar à outro nível. Ela competiu no torneio local de receitas tradicionais e levou mil reais para casa.
— Isso sim é um feito. Competir é um lance de família, então — presumi.
— Lupita é a mais fissurada, falou em vencer e ela já está empolgada com a ideia, mesmo sem saber o que será preciso fazer.
Cortei mais um pedaço da pizza e coloquei na boca, tentada à levar aquela preciosidade ao cartório para adicionar Margherita ao meu nome. Todos os outros sabores de pizzas seriam convidados para a festa de casamento.
— Agora me conte sobre a sua família — Rafael pediu, tomando mais um pouco de vinho.
Senti-me imediatamente disposta a ir embora — levando a pizza comigo —, e desviei os olhos para qualquer lugar, de modo que não se interessasse muito pelo assunto.
— O que quer saber? — perguntei com reservas.
— Hm, não sei, eles também estão em Minneapolis?
— Boston.
Rafael não falou nada, uma forma discreta de me motivar a dar mais detalhes. Não mordia a isca, e ele continuou:
— Tem irmão?
— Um.
— E como é seu relacionamento com ele?
— Bom.
Seus talheres descansaram no prato, e senti seus olhos concentrados em mim.
— O que preciso fazer para que confie em mim? Assim poderemos ter uma conversa civilizada.
Não consegui deixar de notar a ironia daquele momento. Há quase um ano atrás, quando eu estava conhecendo Justin, me frustrava com sua ausência de resposta para perguntas simples. Eu abria minha vida pra ele, e suas falas sobre si mesmo eram monossílabas. O sentimento de conforto ao reconhecê-lo em mim não podia ser um bom sinal.
Abri a boca para responder Rafael, mesmo sem ter pensado em alguma coisa genial, e então o vi. Atravessando a praça havia uma loja da Calvin Klein, e ele estava parado em frente a porta. Uma touca vermelha cobria sua cabeça, a blusa de manga longa preta, e a calça da mesma cor, se responsabilizavam pelo restante. Seus olhos impassíveis estavam fixos no meu rosto.
O tempo parou, me comprimindo entre a realidade alternativa e a lógica, descendo o gelo por minhas veias. O garotinho com um balão de hélio em forma de avião entrou em meu campo de visão, batendo os pés e discutindo com a mãe. Não tive tempo de levantar e me esquivar do impedimento, eles já estavam saindo da frente, e ele havia evaporado.
Tive a sensação de que cada um dos meus órgãos caía aos meus pés. Claro que aquela fora mais uma alucinação da minha mente quebrada. Eu só não estava pronta para recebê-la naquele momento, não cometia nenhum ato irresponsável que me deixaria em perigo. Ou estava? Pensar que Rafael podia ser perigoso me faria rir. Delimitei uma alternativa diferente, algo como minha consciência me chamando de volta aos meus dramas cotidianos. O mundo ruía ao meu redor, eu não podia simplesmente vir ao shopping com um amigo.
— Tudo bem, vamos fazer assim — Rafael expirou, tirando a mão de cima da minha, e só aí fui perceber que ele a havia colocado ali — Preciso ir ao banheiro agora, e você usa esse tempo para pensar se quer conversar comigo. Se não se sentir confortável a me dizer nada, eu mesmo preencho todo o silêncio.
Desestruturada com o que ocorrera há pouco, não consegui me pronunciar enquanto ele saía, jazendo na minha cadeira. Parecia ilógico o vazio pulsar, deteriorando mais um pouco do meu corpo já em estado de decomposição. Fechei os olhos, respirando devagar pela boca para ter certeza de que aquela pressão esmagadora em meu peito não me traria um ataque cardíaco. Esvaziei todos os meus pensamentos, me concentrando apenas no vai-e-vem da respiração.
A cadeira na minha frente se arrastou, e cogitei pedir para Rafael me levar embora. Assim que abri os olhos, entretanto, Maya me encarava.
— Oi Maya — cumprimentei-a com um pulinho de sobressalto na cadeira. Sobressalto era apelido, quase levantei e saí correndo.
Restaurei os fragmentos da compostura que eu usava com ela, mas tinha certeza de que meu sorriso não passava de uma distorção facial.
Tão preocupada comigo mesma, fui perceber sua expressão mortal depois de segundos. O alerta vermelho em minha cabeça disparou o instinto de proteção, e antes mesmo de formular teorias para sua frieza, busquei me livrar dela.
— É um prazer te ver, mas já tem uma pessoa sentada comigo — usei a desculpa, camuflando qualquer sinal de nervosismo.
Ela deu um sorriso cínico.
— Com Rafael, certo?
Se o problema se tratava apenas de macho, eu não precisava me preocupar.
Mas meus músculos permaneceram rígidos.
— Sim, como amigos — defendi-me, meticulosamente me retraindo.
— Percebo bem o olhar de amigos que ele te dá, muito diferente do que me direcionava ontem.
Firmei os pés no chão, pressionando para arrastar a cadeira disfarçadamente com o quadril.
— Essas coisas se resolvem com o tempo...
— Você deve entender mesmo dessa coisa de se aproximar de alguém com o tempo. Quanto tempo você leva?
O alerta vermelho se passava para roxo, um neurônio começou a espalhar a ideia. “Não é por causa do Rafael que ela está aqui, não é por causa do Rafael que ela está aqui”.
Continuei a buscar calma, aquilo não se passava de paranoia minha.
— Não entendi — forcei uma risada sem graça passando a mão por baixo da mesa para pegar minha bolsa aos meus pés.
— Conte-me mais uma vez como você se aproximou de mim porque se “identificou comigo” — ela fez aspas com as mãos.
Ok. Não era paranoia. Criei frases evasivas inutilmente. Seus olhos estavam duros, ela não acreditaria em nenhuma palavra que eu dissesse. Eu precisava ficar o mais longe possível dela. AGORA.
Olhei meu pulso, lembrando tarde demais que eu não usava relógio.
— Eu devo estar atrasada, tenho que encontrar alguns amigos agora. Você avisa Rafael para mim? Pode terminar de comer a pizza com ele, tenho certeza de que ficará muito mais feliz com a sua companhia do que com a minha.
Levantei-me devagar, concentrada nos movimentos dela. Estávamos em público, Maya não me atacaria aqui. Atacaria?
— Não vai nem terminar esse pedaço no seu prato? — perguntou petulante.
— Não estou mais com fome. Te ligo depois.
Passei a alça da bolsa no braço, andando a passos rápidos sem uma rota premeditada. Só precisei virar levemente a cabeça para a direita para ver que ela vinha atrás de mim. O ar entalou na minha garganta, eu estava ferrada. Estudei o espaço ao meu redor, tentando identificar mais empregados da Companhia. Deveria saber que essa vantagem não estava ao meu alcance. Não há uma característica física certa que denuncie um assassino, eles se misturam em nosso meio como nossos amigos, irmãos, namorados, familiares, e alguns de nós nunca descobrimos seus segredos mais obscuros.
Xinguei mentalmente ao ver que a saída ficava para o lado contrário de onde eu estava indo, mas se eu tentasse voltar, encontraria Maya no meio do caminho. Abafei o desesperador pensamento de que ela pudesse estar me conduzindo para onde bem queria. Vislumbrei a placa apontando para o estacionamento, e sem pensar duas vezes, corri para o lance de escadas. Uma vez nos degraus pouco movimentados, acelerei os passos, pulando de dois em dois para chegar ao subsolo e poder fugir livremente.
Fui recebida pelo calor do ar concentrado de gasolina, borracha dos pneus no chão e motor. O cheiro denso me deixou claustrofóbica, mas disparei entre os carros, torcendo para algum deles estar saindo e me fornecer uma carona. A percepção dolorosa de que a única pessoa ali travava o carro para entrar no shopping, quase me fez refazer o caminho para o aglomerado de pessoas. O som do sapato de Maya nos degraus me avisou quer a ideia era péssima.
Olhei para todos os lados, choramingando pelo estacionamento ser tão grande. Eu conseguia ver a luz natural do sol entrando pela saída de carros a uns 600 metros para a esquerda, então corri, fazendo o mínimo de barulho que eu podia com os pés, me abaixando para me esconder atrás dos veículos.
— Faith? — Maya cantarolou, o som ecoando — Precisamos conversar.
Eu fazia uma ideia da conversa que ela queria ter a três, nós duas e sua arma de fogo.
— Você sabe que assim está declarando culpa no cartório? Eu nem ao menos te disse coisa alguma.
Não soube distinguir se ela estava correndo, mas não diminui meu ritmo, me detendo apenas quando o bloco de carros terminou para investigar se era seguro ir pela pista para o próximo.
— Você colocou uma corda no meu pescoço, Evans, sabia disso? Fui muito burra para não perceber que me usava desde o começo.
Inclinei-me na lateral do Ford, procurando onde ela estava. Maya calculava cada passo dado a três carros de mim. Ela também devia estar correndo, e eu não podia sair do meu esconderijo.
— Vou propor um trato com você, se me devolver Jazmyn e Jaxon, prometo que você ainda vai poder andar. Aonde você os escondeu, querida?
Aonde eu os escondi? Como os esconderia se não os havia encontrado ainda?
— Você os sequestrou como meio de troca por causa do seu contrato, não foi?
E aí estava, dito em voz alta. A ameaça invisível pairava sobre minha cabeça novamente.
— Não vai funcionar. Devolva os dois e viva o tempo que te resta com todos os membros intactos.
Engatinhei para a traseira do carro quando pude enxergar seus pés, aumentando a distância entre nós novamente. Se ela seguisse reto, eu podia voltar ao shopping e sair pelas portas automáticas.
— Por que está se escondendo? Não é de mim que precisa ter medo. Annelise tem um grande trabalho pela frente.  
Ela parou no meio da pista, colocando as mãos na cintura. De fato, não possuía uma arma em mãos, mas isso não foi capaz de acalmar meus batimentos cardíacos. Recuei para ficar atrás do carro, sem prestar atenção que minha bolsa ficara presa na placa. O efeito elástico me puxou de volta para a frente e eu cai de joelhos no chão.
Annelise se virou no mesmo instante e seu rosto enfurecido não tinha nenhuma relação com a voz anteriormente agradável.
— Aí está você.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

One Love 11

Maya já estava leve, abrindo a segunda caixa de cerveja que trouxera. A batata frita fornecida por Rafael não estava em quantidade suficiente para forrar seu estômago e lhe livrar da alta receptividade do organismo à influência do álcool. Sentada em minha mesa com as pernas cruzadas cobertas por uma saia justa e pequena, e inclinada na direção de Rafael — seus seios quase pulando do decote —, falava sobre todo o tipo de coisa, menos do que me interessava. Cruzei minhas mãos em cima do colo, respirando fundo mentalmente para adquirir mais um pouco de paciência. Rafael me lançava alguns olhares furtivos, transmitindo alguma mensagem que não consegui captar.
— E é claro que prefiro um bom banho de banheira do que uma chuveirada. A banheira nos dá certas liberdades — ela disse com malicia, dando uma risadinha quase infantil, aparentemente concluindo sua lista de preferências aleatórias.
Eu sorri com incentivo, arqueando a sobrancelha como se soubesse do que ela estava falando. O cenho de Rafael se franziu imperceptivelmente. Não precisava ser muito esperto para ver que Maya não estava se saindo muito bem no jogo da sedução com ele. Estava na hora de uma interferência para melhorar o seu lado e o meu.
— Conte-nos como você é uma pessoa de sucesso em seu emprego. Quer dizer, ainda não conquistei tanta confiança de Hazel como esperava a essa altura, preciso de algumas lições. Maya é muito responsável — acrescentei para Rafael, ele parecia apreciar essas coisas.
Sua expressão se clareou minimamente, uma pequena faísca de esperança de um assunto interessante. 
— É mesmo? O que você faz?
Ela colocou a mão na boca, tentando esconder o sorriso pervertido. Enrijeci.
— Bom, você tem que estar disposta a correr alguns riscos. Afinal, toda relação humana que se preze envolve um pouco de sacrifício — discursou com seriedade, a postura muito bem calculada.
Relaxei na cadeira. Não fora uma resposta tão ruim quanto pensei, mas evasiva na medida certa.
— Ela é assistente pessoal de um empresário de sucesso — contei, preferindo eu mesma acrescentar detalhes rasos.
— Eu conheço a empresa? — Rafael perguntou, me pegando de surpresa.
Maya simplesmente deu de ombros, virando a latinha na boca.
— Provavelmente não. Eles são canadenses.
A informação me deixou em alerta. Ela estaria mentindo para enganar Rafael? Eu me lembrava de ter lido esta nacionalidade na certidão de Justin. E se fossem, por que estavam aqui? Ou seu negócio era internacionalmente amplo? A suposição me deu náuseas.
— É altamente estressante, sabe? É tanta responsabilidade — ela expirou, relaxando os ombros e balançando as pernas. Se não tomasse cuidado com a altura e distancia delas, poderia deixar a vista sua calcinha. Não que eu achasse que se importava com aquilo.
Seu iPhone vibrou na mesa bem à minha frente. Devido aos seus reflexos lentos, ela demorou a pegá-lo e consegui ler a mensagem.
“059 para Annelise. ”
As palavras vinham de um número desconhecido, mas o nome contido nelas me arrepiou a espinha. Maya leu o recado esforçando um pouco os olhos, então bufou trepidando os lábios e jogou a cabeça para trás teatralmente.
— Eu bem disse. Faith, pegue o iPad na minha bolsa pra mim.
Tirei sua bolsa preta debaixo da mesa e abri o zíper, resgatando o iPad preto de dentro dela, o único objeto diferente que ali constava desde a última vez que eu fuçara. Eu estava tensa. Se ela sabia quem era Annelise, deveria saber que aquela desalmada estava atrás de mim. E o que significavam os números 059?
— Tecnicamente, hoje estamos todos de plantão — ela revirou os olhos, digitando a senha no aparelho devagar demais, memorizei meus chutes na cabeça, eu estava certa pelo menos de dois deles, começava com 1 e terminava com 3.
A observei digitar uma senha — a qual eu consegui ver perfeitamente — para abrir uma pasta de nome curioso contendo várias miniaturas do Word. Ela foi na barra de pesquisa e digitou o nome de Annelise, então clicou duas vezes sobre e o documento se abriu. O aparelho estava em seu colo enquanto digitava um número que tirava dali. Entendi então do que se tratava, sua ficha, como a que eu vira com Justin, dele próprio, de seu pai e de seus irmãos. Por ser a sede eles possuíam mais tecnologia ou... por ter que guardar informação de muitas pessoas? Muitas pessoas do tipo, todas as que trabalhavam na Companhia? Ou que deviam trabalhar?
Ela terminou e me entregou o iPad bloqueado para que eu colocasse de volta na bolsa. A ideia surgiu enquanto eu me abaixava para o fazer, vendo a minha bolsa um pouco menor do que a sua, mas da mesma cor, ao lado da mesma. Maya já se distraía de novo, falando sobre alguma besteira qualquer. Com a visão periférica, eu percebia os olhos de Rafael julgadores nela, então não prestaria atenção em mim. De qualquer forma, valia a pena correr o risco. Coloquei seu aparelho dentro da minha bolsa rapidamente. Eu não poderia ficar com ele por muito tempo, tinha quase certeza de que possuía um rastreador, e assim que o farejassem até mim, eu estaria em sérios problemas.
Portanto, pedi licença para ir ao banheiro e levei minha bolsa comigo, segurando o riso do olhar de piedade que Rafael me lançou. Adentrei a galeria que possuía um escritório para Hazel, uma sala de depósito e um banheiro para nós duas — o de clientes ficava lá na frente —. Tranquei-me nele e sentei na privada depois de abaixar a tampa, pegando o iPad e iniciando a sequência de números que eu supunha. Eu sabia não ter muitas chances até que ele bloqueasse, mas consegui esse feito infeliz e tive que esperar mais um minuto para tentar novamente. Descontei toda minha ansiedade em minhas unhas, roendo-as, já planejando o que eu diria à Maya caso ela desse falta do aparelho antes que eu retornasse. Podia receber outra mensagem e precisar dele de novo, e assim saberia que eu o havia pegado e estava fuçando nele dentro do banheiro.
Na 20º vez que tentava o código, o aparelho desbloqueou. Eu sequei o suor na testa, seguindo os mesmos passos que ela seguira. Digitei a senha na pasta denominada “Hawaii trip” e tentei a sorte, digitando Bieber na barra de pesquisa. Todas as pessoas nos quadros que eu vira na Companhia possuíam uma ficha ali, inclusive Justin. Eu me corroía para abri-la, mas notei a de Jazmyn e Jaxon e estabeleci as prioridades. Não poderia conter o status “Transferidos para a sede” se já estávamos na sede, certo? Só queria me certificar de que eles estavam mesmo por ali.
Abri primeiro a de Jaxon, deixando meu queixo cair de perplexidade. Esta ficha continha desde seus genitores a seu tipo sanguíneo, mas não era o que me espantava, fora sua localização. Boston, Massachussets. Eu fechei os olhos, mordendo a boca. Eles podiam ter uma ala infantil em Boston, mesmo sem Justin saber, e nós a destruímos com os explosivos, quando seus irmãos estavam lá dentro.
O desespero fechou minha garganta, mas não me dei por satisfeita, voltando para clicar no documento de Justin. Ali constava a data de sua morte logo após a do nascimento, 20/11/2016. A mão invisível apertou meu coração, mas ao mesmo tempo, consegui voltar a respirar. Se não constava a data de falecimento de Jaxon, ele não estava na filial naquele dia. O documento de Jazmyn continha as mesmas informações. E por um infortúnio, não estava anexada nenhuma foto dos dois.
Se eles estavam em Boston, onde poderiam estar? Presumi que a ficha estivesse atualizada, contando com o fato de que portava o dia do falecimento de Justin. Alguém da Companhia teria sobrevivido e cuidava dos dois em segredo para George? Cuidava não, treinava.
O pesar afundou meus ombros. Eu tinha que voltar para Boston. Apoiei a cabeça nas mãos e passei todo o cabelo para trás, respirando. Haviam várias questões envolvidas nessa decisão. Se Annelise não estava blefando sobre o meu contrato, iria atrás de mim para minha terra natal, e eu não queria colocar todo mundo em risco de novo. Uma voz inconveniente no fundo da minha cabeça alertou que já estavam em risco. Me afastar deles não era exatamente um benefício no quesito segurança, uma vez que minha família toda estava na mira. Só fui escolhida para ser a primeira por ser “o bem mais precioso de Bryan”. Mas se assim fosse, eu apenas faria Bryan ceder às demandas dadas e aquele pesadelo acabaria. Eu estava vivendo sem toda a mordomia que aquele dinheiro nos fornecia, e exclusivamente nesse ponto, não podia reclamar da minha vida, eles também podiam sobreviver. 
A ideia de Eleanor se desfazer de todas as suas joias me fez pensar que preferiria a morte.


O barulho constante e chiado me fez revirar na cama. Conforme a consciência me retornava, o relacionei com uma lixa. Esperei que parasse seja lá de onde e como viesse, mas o tempo passava e nada acontecia. Resmunguei, eu não dormira há muito, o começo todo da noite passei me retorcendo com os pensamentos interligando minhas novas teorias. Abri os olhos e procurei a origem daquele som, cogitando a ideia de ter deixado a janela aberta e algum animal intrometido estava ali roendo minhas coisas.
Demorei para acostumar meus olhos, mas assim que o fiz, meu coração surrado subiu para a garganta e meu corpo se retraiu para o canto da parede. A sombra em meu guarda roupa soltou uma risada feminina enjoativa.
— Assustei você? — até mesmo o seu tom de voz me indicava que essa era sua intenção.
Identificando minha visitante, soltei o ar, a fuzilando com os olhos e me sentando na cama.
— O que faz aqui? — perguntei com toda a autoridade que possuía. Ela interrompera minha noite de sono lixando suas unhas no meu quarto.
— Estava me sentindo meio sozinha, precisava conversar — não me deixei enganar pela sua inocência fajuta.
Vasculhei a minha volta, procurando alguma coisa que servisse como arma se Annelise resolvesse me atacar. No momento, o travesseiro era minha melhor opção. Usei aqueles segundos para me organizar, eu sabia que entrar não deveria ter sido exatamente um problema para ela e suas habilidades idiotas, mas me perguntava o que ela queria dessa vez. Talvez concretizaria todas as suas ameaças implícitas. Um pensamento paralisante me fez temer que eles finalmente conseguiram acesso às câmeras, me viram com Ryan fugindo da garagem, 059 significava morte imediata.
Parei de me preocupar com isso quando me lembrei que Caitlin dormia no quarto ao lado.
Ela percebeu minha inquietação e deu um sorriso afiado de canto. Seu intuito era me levar ao medo para que pudesse fazer sua caçada idiota.
— Você queria reafirmar pra mim sua estratégia? Pois bem, já entendi. Agora pode sair do meu quarto?
Annelise levou a mão ao peito, demonstrando estar ofendida. A seguir, caminhou até minha cama enquanto eu recuava, se sentando na beirada.
— Achei que podíamos compartilhar segredos hoje, uma festa do pijama — seus olhos pareceram mais loucos com a empolgação — Quem começa?
Cruzei os braços, lhe encarando com desprezo.
— Posso te segredar que no domingo conheci uma nova espécie de vaca. Ela tem cabelo loiro e olho azul.
Annelise jogou a cabeça para trás ao rir exageradamente. Então abanou a mão.
— Essa foi boa. Mas eu estava pensando em coisas mais intimas — apresentou-me seu sorriso sugestivo — Como por exemplo... compartilharmos nossas experiências.
 Mesmo sabendo que me arrependeria daquilo, perguntei impaciente:
— Que experiências?
Ela deu dois tapinhas no colchão, arqueando as sobrancelhas.
— Justin era maravilhoso nisso, não? Muito criativo. Acho que nunca encontrei alguém como ele ainda.
Eu raciocinei devagar, depois preferi não ter entendido, sentindo vontade de vomitar. Direto na sua cara, para ser mais específica. Meus tendões enrijeceram de ciúmes.
Preferi não falar nada — o que eu diria também? — e ela me analisou.
— É claro que vocês chegaram a esse ponto. Ele não perdia tempo — afirmou, embora desconfiada, jogando a isca para que eu mordesse.
Não aguentei encará-la por muito tempo, tendo uma imagem bem real pintada em minha mente das mãos dele tocando cada parte do corpo dela, despindo-a com beijos, o suor dos dois impregnando em um lençol qualquer. As náuseas fizeram festas em minha barriga.
— Ah meu Deus! — Annelise quase gritou com uma perplexidade empolgante — Você não chegou a dormir com ele!
— Claro que dormi com ele! — defendi-me no mesmo instante.
Mas ela já estava rindo.
— Não da forma mais interessante. Isso é mesmo chocante, é mais do que claro porque ele se entediou com você! Depois de dinheiro, essa era a coisa mais importante pra ele no mundo!
Não gostei nada de sua forma de falar de Justin com tanta propriedade, como se o conhecesse de cabo a rabo. Acrescentando isso ao fato de que tentava me ofender e estava ali para para me matar. Pois ela deveria saber que só olhar para seu rosto enjoativamente perfeitinho demais era uma ofensa pra mim.
— Acabou? Eu realmente preferia estar dormindo agora.
Eu preferia que me matasse de uma vez do que continuar tendo aquela conversa com ela.
Annelise levantou as mãos pedindo um tempo, tentando interromper sua gargalhada. Dissimulada!
— Tenho que te contar, eu pensei mesmo em te manter em cativeiro porque assim Justin apareceria para te resgatar, mas claramente estou superestimando seu valor pra ele. É bobagem. Talvez ele tenha explodido o lugar apenas como uma vingança...
Expirei, exausta de toda aquela teoria.
— Pensei que os Biebers só contratassem gente competente, mas é visível que no lugar do seu cérebro só tem as fezes que você mesma produz. Justin morreu, aceite e siga em frente, direcione suas forças para outro lugar — disse com frieza. Eu não admitiria que ela incentivasse os resquícios de esperança insanos dentro da minha cabeça. Já havia loucura o suficiente para um cérebro só.
— Você não é visionária, não me surpreende.
Eu ri com deboche e o som saiu do meu nariz. Annelise tinha a autoestima alta demais para o bem da sociedade, exaltando a si mesma como se fosse melhor que todo mundo, se achando muito mais esperta do que eu em um assunto totalmente meu por direito. Eu podia não conhecer tudo sobre Justin, mas eu o sentia, e isso é muito mais útil do que ter um monte de informação sem saber o que fazer com elas.
— Realmente. E isso é uma doença contagiosa. Te aconselho a se afastar imediatamente.
Ela me deu um sorrisinho paciente como resposta, passando a varrer meu quarto com os olhos, memorizando cada parte, hipoteticamente, detalhes cruciais para ela. Não quis admitir para mim mesma que aquilo me deixava nervosa, mas não dava para negar a lógica. Seus pensamentos totalmente cruéis estavam enraizados na cabeça. De fato, ela me parecia combinar muito mais com Guilherme do que Justin.
— Justin que me ensinou a invadir, tenho que confessar — e então direcionou toda a sua atenção para o meu rosto, o seu humor agressivo de segundos mais cedo cedeu lugar a uma curiosidade nociva — Quem é aquela boneca de porcelana dormindo no quarto ao lado?
Ela não sabia quem era Caitlin? Finalmente eu estava um passo a frente. Certifiquei-me de dotar a voz de firmeza antes que abrisse a boca:
— Colega de apartamento.
Annelise franziu o cenho, duvidando de mim. Seu corpo se arqueou na minha direção, os olhos fixos nos meus me impediam de olhar para outro lugar, me pressionando. Levantei todas as minhas barreiras defensivas, prevendo seu próximo ataque.
— O que você está fazendo em Minneapolis, Faith?
Um pingo de suor desceu pelas minhas costas. Eu havia melhorado minha capacidade de mentir, só não estava certa de ser o suficiente para passar pelo interrogatório dos olhos azuis mais perturbadores que eu já vira na vida.
— Me afastar dos meus pais — não era completamente mentira, então me pareceu uma afirmação completamente segura.
Ela se aproximou mais.
— E por que Minnesota?
Deixei todo o meu corpo paralisado, controlando qualquer tipo de exteriorização ansiosa enquanto formulava uma resposta no único segundo que tive.
— Não é segredo que Minnesota é o maior centro financeiro da região. Várias oportunidades de ascender numa vida começando do zero.
— E Minneapolis?
— É o núcleo da região metropolitana, mais empregos. Mesma resposta.
Agradeci fervorosamente à minha professora de Geografia do ensino médio, Sra. Grey, por me fazer decorar o nome dos cinquenta estados dos Estados Unidos da América. Utilizei todos os métodos para memorizá-los, desde composição de músicas à uma lista colada em cada canto do meu quarto para que sempre desse uma olhada. Não satisfeita, ela nos fez escolher dez estados para apresenta-los à classe. Minnesota estava entre as minhas escolhas, e nunca agradeci tanto por uma decisão minha do passado.
— Que infortúnio seu parar na cidade sede da Companhia Bieber, huh?
Sua expressão fácil não me disse muito, entretanto, eu sabia que não acreditava na minha história.
— Levante-se — me pediu, pulando para fora da cama.
Mantive-me no lugar, tentando adivinhar o que ela queria. Uma luta corporal, talvez?
Irritada com minha ausência de resposta, me puxou pelo braço. Eu quase caí de cara no chão, sua força era maior do que eu imaginava. Me estabilizei e puxei meu braço de volta com brutalidade, já dando o aviso para meus músculos se prepararem. Ela me deu um sorriso angelical antes de levantar a perna esquerda ligeiramente e enganchar a parte de trás da canela na minha nuca. Ainda sobressaltada pelo movimento totalmente inesperado, deixei o impacto me levar para a frente, colocando as mãos na frente do corpo para que não batesse o rosto no piso gelado. Assim que que caí e premeditava um rolamento, o peso de um saco de cimento foi jogado no fim das minhas costas. Eu arfei, parando de me apoiar nas mãos para que não as esmagasse. Annelise puxou meus braços para trás, entrelaçando-os como se fosse me prender.
— Ficou louca?! — eu gritei, começando a me espernear embaixo dela. Seus objetivos não se limitariam a uma simples brincadeira.
— Se você gritar e sua amiga vir para cá, não vou poder ser totalmente responsabilizada pelos resultados — me avisou com uma doçura diabética.
— O que você... — comecei a dizer, mas fui interrompida pela pontada alarmante que senti no meu antebraço direito, me provocando um gemido de dor. A sensação desceu em uma linha reta profunda rapidamente e o sangue começou a latejar naquela região, a ardência e as gotas melosas que saiam dela me avisaram ser um corte. O desespero deixou minha visão turva ao imaginá-la me cortando pedaço por pedaço, e mais uma vez me debati feito um peixe fora d’água.
VI-me livrei do seu peso, e imediatamente me voltei para enxergá-la, sentando e indo para longe dela. Annelise já estava de pé, com um pano preto na mão limpava o meu sangue do canivete, tão tranquila como Fleur enxugava as louças de minha mãe. Tateei a minha volta, buscando alguma coisa para me defender.
Ela me olhou de cima com uma expressão adorável para quem acabara de enfiar uma lâmina em meu corpo.
— É uma marca minha, a contagem. Justin adorava a ideia — explicou-me, prepotente — Procure não sentir saudades.
Não tirei os olhos dela enquanto saía do meu quarto e fechava a porta atrás de si com um aceno amigável. Eu poderia ficar ali, agradecendo por me livrar dela naquele momento, mas não me esquecera de Caitlin também estava no apartamento. Levantei-me depressa e saí para o corredor, não havia mais sinal de sua presença. Da mesma forma, abri a porta do quarto de Caitlin, procurando. Acendi a luz.
Caitlin fez uma careta, colocando a mão na frente do rosto. Os segundos em que ela levou para me identificar usei para procurar Annelise nas sombras. Nenhum sinal dela.
— O que é isso?
Respirei fundo com alívio, relaxando a tensão nos meus ombros. Examinei o corte no meu braço em seguida, relacionando a linha reta com um palito. Era assim que eu marcava os pontos quando Caleb e eu estávamos jogando com Wren qualquer coisa no vídeo game, uma sequência de palitinhos intermináveis. Caleb me achava burra por não fazer um quadrado e cortá-lo ao meio quando chegasse os 5 pontos.
Se Annelise dissera que aquela era sua contagem, eu não queria nem pensar em quantos chegaríamos ao limite — talvez quando não houvesse mais espaço em meu corpo para seus cortezinhos — e ao que isso levaria.


— Eu achei que isso estivesse servindo para alguma coisa — Caitlin me disse baixo, enquanto olhávamos no tatame vermelho da sala branca a próxima rodada de colegas repetindo a sequência de ataques que o professor passara.
Não haviam palavras para expressar o quanto eu estava decepcionada comigo mesma, Caitlin não precisava ser um lembrete disso. Annelise era forte e muito ágil, eu mal pisquei e ela já estava em cima de mim. Três meses de Krav Maga nas manhãs de terça e quinta não foram páreos para sua habilidade de anos na Companhia. Estava certo, eu tinha algumas faltas, mas não tantas assim para continuar tão inútil quanto entrei.
Sequei minha testa molhada e vermelha com a toalha branca, mantendo minha boca fechada. A faixa enrolada em meu antebraço servia como representação da minha humilhação. O corte não estava tão profundo para tanto, mas eu não sairia por aí exibindo a contagem ridícula de Annelise.
— Você sabe que já fiz vários tipos de luta, mas artes marciais sempre foram minhas preferidas. Eu queria que ela tentasse me encarar para ver se conseguiria se sair por cima, vagabunda — Caitlin rosnou.
Tivemos sorte que seus pais houvessem ido embora às oito horas da noite de segunda. Eu não conseguiria me perdoar se também os colocasse em risco.
Meu celular tocou na bolsa de treino preta e eu o peguei antes que pudesse receber um olhar feio do Mestre Kobi, um dos melhores professores do mundo, o qual detestava sermos interrompidos por um aparelho que deveria estar desligado. Atendi me escondendo atrás de Caitlin.
— Quais são as boas, Caleb? — perguntei aos sussurros.
Na noite anterior, eu havia lhe pedido um favor, ele não sabia minhas motivações, e do mesmo jeito concordara, como o bom irmão mais velho que sempre fora. Eu precisava cercar todas as possibilidades. Jazmyn e Jaxon estavam em Boston, e não era em uma filial da Companhia. Então eu pensei, qual entidade cuida de crianças? Mesmo na minha cabeça, fazia zero sentido George deixar as crianças em um orfanato. Elas precisavam de treinamento, o qual eu tinha certeza não estar disponível em um orfanato comum. Por outro lado, eu não tinha nada a perder. A primeira coisa que se passava em minha cabeça com “crianças órfãs” era orfanato.
 Não tenho exatamente boas notícias — ele respondeu nervoso, eu quase podia vê-lo mordendo a boca e massageando o queixo.
— Vai me dizer que não conseguiu enganar Melissa para ter acesso ao computador?
Caleb respirou fundo.
— Não é isso. Não tem nenhum registro de Jazmyn e Jaxon lá, mas essa não é a questão.
Quase me deixe escorregar no banco de desânimo, conscientemente eu sabia que eles não estariam no orfanato de Boston. Minhas esperanças, porém, não. Estava tão consumida por frustração que cheguei perto de me esquecer que Caleb estava ansioso para me dar notícias não tão boas.
— E qual é a questão? — o incentivei, já maldizendo o mundo por sempre me trazer uma notícia ruim em cima de outra.
— Maxon e Yasmin estão desaparecidos.