Leitoras com Swag

Hey garotas, beliebers ou não beliebers. Só estava faltando você aqui! Nesse blog, eu, Isabelle, faço IMAGINE BELIEBERS/ FANFICS. Desde o começo venho avisar que não terá partes hots nas Fics, em nenhuma. Repito, eu faço 'Imagine Belieber' não Imagine belieber Hot. A opinião da autora - Eu, Isabelle - não será mudada. Ficarei grata se vocês conversarem comigo e todas são bem vindas aqui no blog. Deixem o twitter pra eu poder seguir vocês e mais. Aqui a retardatice e a loucura é comum, então não liguem. Entrem e façam a festa.
" O amor não vem de beijos quentes. Nem de amassos apertados. Ele vem das pequenas e carinhosas atitudes."- Deixa Acontecer Naturalmente Facebook.
Lembrem-se disso. Boa leitura :)

Com amor, Isabelle.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

One Love 21

Tínhamos a seguinte cena: Justin rolava no chão tentando tirar uma faca, que outrora estava na pia, do seu ombro; Rafael me segurava no alto pela cintura enquanto eu me debatia e proferia as mais diversas ofensas existentes com os olhos esbugalhados cheios de veias saltadas; Caitlin e Ryan discutiam entre si para determinar qual lado escolher. Tudo isso na minha mente durante um formidável jantar de macarronada preparado por um defunto sem coração.
Tilintavam-se os talheres nos pratos, preenchendo o silêncio escolhido pelas cinco almas perturbadas sentadas numa mesa retangular pequena que fazia com que meu braço se encostasse ao de Rafael. Todos nós estávamos furiosos com o sujeito mais sereno do ambiente, sentado na ponta da mesa, ignorava toda a carga negativa jogada sobre ele.
Preferi encobrir com raiva a dor da rejeição confirmada minutos antes. Parecia lógico que se Justin escolhera, por livre e espontânea vontade, morrer pra mim, não tivesse mais o interesse que pensei ter uma vez. Estava tudo bem na minha cara. “Eu te amei tanto que...” ele mesmo o dissera na sua tentativa de justificar seu desaparecimento. Só um analfabeto não saberia que aquilo era passado. Um passado que parecia ser de uma vida atrás. Mas quanto ao "não ficar por muito tempo", eu não admitiria.
E ainda assim, eu sentia aquela faísquinha no peito por saber que ele existia. Minha melhor chance de continuar com as “ideias no lugar” — se é que ainda restava alguma — era procurar um psiquiatra imediatamente. 
— O que estão planejando fazer amanhã? — Caitlin cortou o silêncio perturbador sem aviso prévio, mal olhando para Justin.
Ryan e Justin se entreolharam, deixando escapar uma olhadela para Rafael como um lembrete do impedimento que ele representava para uma conversa franca. Sinceramente, Rafael tinha minha admiração e respeito, mas aquele era o lugar errado e a hora errada para ele. Caitlin também deveria ter o bom senso de reservar a pergunta para outro momento.
Justin limpou a boca com um guardanapo antes de falar:
— Terminar o que fazíamos hoje. Ryan estava com George — o que significava “seguindo George”, eu espera. Uma vez que se George soubesse da sua existência, penduraria sua cabeça num espeto depois de lhe jogar a responsabilidade pela explosão — Eu e Annelise na sala dos arquivos. Esta última parte foi infrutífera, então acreditamos que teremos que dar uma passadinha na sala de George também.
Minha respiração se acelerou. Ele estava na Companhia hoje? E planejava invadir a sala de George amanhã? Tudo isso sem esperar que uma só pessoa o reconhecesse?
— Vou incluir uma conversa com Maya na agenda agora.
Engoli em seco. Para ambos os lados, aquela não era uma boa coisa. Procurei minha língua para me manifestar.
— Ótimo. De que cor vão querer o caixão de vocês desta vez? — Caitlin debochou.
Deu-se uma pausa. Ryan falou:
— Faith, seu irmão comprou passagens para vir à Minneapolis nesta madrugada. Ele me ligou.
— E como ele tinha seu número? — minha voz subiu uma oitava de surpresa.
— Posso ter passado para Wren quando ele estava aqui...
Era o que me faltava!
Dei um suspiro irritado, trocando um breve olhar com Justin, e saí da mesa, atrás do meu celular. Aquele era um péssimo momento para meu irmão aparecer. Praguejei contra mim mesma por decidir contar sobre o contrato.
Peguei o aparelho da cama, onde Caitlin havia colocado, e tirei do modo avião. As notificações berraram uma atrás da outra, alternando-se entre ligações e mensagens de Hanna e Caleb.
"Não diga que não tentei, mas era uma missão impossível. Ele está transtornado." Lia-se em uma das mensagens de Hanna.
Disquei primeiro o número dela. A ligação foi atendida no segundo toque.
— Graças a Deus! — ela exclamou.
— Hanna, onde Caleb está?
— Bom... — antes que criasse coragem para dizer, ouvi do outro lado da linha “Última chamada para o voo 1234 de Nova York” — Estamos no aeroporto.
O plural não me passou despercebido.
— Caralho! O que eu te disse, Hanna Marin?! Vocês não podem vir pra cá!
A cabana de Justin e Ryan se transformaria mesmo em uma pensão. Pensei na expressão do meu irmão e da minha amiga quando vissem Justin andando por essa terra. Depois de jogarem sal e água benta, ligariam para um padre. Assim que descobrissem que ele não era um fantasma, o transformariam em um. Ao mesmo tempo, me preocupava com o quão furiosa minha melhor amiga ficaria se eu não lhe contasse que o amor da minha vida ainda vivia. O amor da minha vida que não me queria mais.
— Faith, se coloque no nosso lugar. Ele é seu irmão. Esperava que ficasse parado enquanto a caçula corre risco de morte?! Exatamente como da outra vez?
— Vocês não sabem nada do que está acontecendo! Vamos acabar morrendo todos por essa estupidez!
— Pelo menos vamos morrer juntos. Não vamos ficar esperando para receber notícias de que você morreu!
Joguei minha cabeça para trás, grunhindo.
— Ryan vai resolver tudo amanhã! Eu te disse que seria rápido! Não tem necessidade de virem para cá.
— Ótimo, então quando chegarmos, todos estaremos seguros.
— É meio de semana, Hanna. Ele não tem que trabalhar? E você não tem faculdade?
— Caleb está se aproximando, quer fazer suas reclamações pra ele?
— Por favor.
Ouvi seus murmúrios, e então ele já estava abusando do sarcasmo:
— Nossa, Faith, resolveu atender?
— Caleb, eu não quero vocês dois aqui — sibilei.
— Chegamos bem cedo. Às seis. Não precisa nos buscar no aeroporto. Tenho seu endereço.
— Caleb... — ameacei.
— Nos vemos mais tarde. Estou ansioso.
E desligou.
A teimosia era uma coisa de família, mas ele tinha me superado. Não podia acreditar que ainda por cima traria Hanna para a confusão. Hanna, a bonequinha de porcelana que chorava se quebrasse uma unha. Ela não permaneceria intacta a mais um encontro de assassinos. Eu ainda sentia o peso em cima do meu estômago e a garganta devido a minha reunião desta tarde.
Como se eu já não tivesse problemas demais para lidar. 

Escutei quando Rafael se virou no colchão colocado no chão ao lado da minha cama.
— Como se dorme depois de um dia desses?
Lembro-me de ter me preocupado com isso há um tempo atrás até entender que a resposta era simples: Não se dorme. Ou, em casos mais extremos, embriaga-se o rabo até desmaiar de bêbado.
— Tenho que passar na galeria amanhã. Você também vai?
Tentei pensar em uma noca desculpa para dar à Hazel. Não sabia se ainda aceitaria a história da minha amiga doente. O salário eu já tinha consciência de que seria descontado, mas uma demissão por justa causa não estava nos meus planos.
— Não posso.
— Vai visitar sua amiga no hospital?
— E aparentemente buscar alguns parentes no aeroporto também.
— Qual é o seu problema com seu irmão?
Enrolei a ponta do cobertor. Depois o afastei de mim com os pés. Estava ficando sufocada.
— Ele não queria que eu viesse para cá, e eu... não o quero metido nos meus problemas.
— Entendo.
A curiosidade de Rafael transitava a minha volta, eu sabia que haveria mais perguntas.
— Você gosta mesmo dele, não é?
Não estávamos mais falando de Caleb. Eu apertei bem a linha da boca.
— Não aguenta ficar longe dele — Rafael continuava suavemente — Desde que te conheci, percebi em seus olhos uma tempestade, e quando você olha pra ele... tudo se acalma, o restante do mundo sai completamente do foco. O deixamos na sala há dez minutos e você não para quieta — seu tom disfarçadamente humorado não foi capaz de impedir a sensação de estar sendo enforcada outra vez.
Minhas veias ainda estavam geladas de medo que Justin desaparecesse, outro corpo se colocava em cima do meu, deixando-o pesado, não conseguia eliminar a dúvida total de que de que aquilo fosse um sonho maluco. E mesmo quando eu parecia quase convencida de que ele existia, me entristecia saber que não éramos a mesma coisa. Só Deus sabe o quanto eu queria beijar cada milimetro do corpo dele e senti-lo reagir sob meu toque.
— Sei que não é da minha conta, mas já passei por isso. Pensei que poderia te dar umas dicas de um sobrevivente — ele esperou um pouco para que eu protestasse, mas não o fiz — Eu praticamente idolatrava minha ex namorada, Amalia. Movia Céus e terra por ela. Mas como é de se esperar, quando um dá valor o suficiente pelos dois, o outro se acomoda e reina na relação. Amalia me fazia de gato e sapato, e eu estava satisfeito em ser por ela. Por vezes, tive que trocar de parceiras no tango porque ela cismava com as coitadas. E ironicamente, fui eu que perdoei muitas traições vindas da sua parte — pigarreou, tornando firme outra vez sua voz agora envergonhada de admitir tal submissão — Só percebi quanto aquilo me desgastava quando Lupita me perguntou, seriamente, se eu não podia processar Amalia por escravidão, porque já havia sido abolida há décadas — ele riu — Completou dizendo que tinha que me levar a um padre para Deus quebrar toda feitiçaria que estava em mim. Ela não estava brincando, usava um rabo de cavalo que sempre pensou ser adequado para assuntos sérios. Em uma das mãos segurava a Constituição do México e a Bíblia Sagrada. Depois disso, terminei com Amalia e mudei a minha vida. Nos meses seguintes, me mudei para cá e nunca me senti tão bem comigo mesmo. Aproveitei ao máximo minha liberdade, me curei, e já estou pronto para outra — suspirou, visivelmente aliviado — Eu só queria te dizer que existem outras pessoas no mundo dispostas a te fazer feliz, ele é apenas um em bilhões. Mas ninguém pode te amar mais do que você mesma. Se você tivesse ideia da pessoa fascinante que é... Talvez percebesse que merece muito mais do que estão dispostos a te oferecer.  
Apreendi suas palavras devagar, e foi uma luta para prestar a atenção devida nelas. Refleti sobre o assunto paralelamente com a vontade de sair do quarto para ir atrás de Justin, naufragando a raiva que eu sentia dele. Rafael estava certo, obsessão não era saudável. Mas essa não era uma situação ordinária para ser analisada a luz cotidiana superficial dos sentimentos.
— Obrigada, Rafael — murmurei.
Imaginei que ele fosse me contar sobre sua conversa com Justin na cozinha. Mas seja lá qual fosse sua motivação, apenas me desejou boa noite, acrescentando certa positividade ao dizer “Amanhã será um dia melhor”.
Escutei sua respiração por um bom tempo até que parecesse profunda o bastante para supor que dormia. Seu cheiro inundava o quarto, de forma que acabei me acostumando com ele. Rafael tinha um aroma de produto capilar masculino, seus cachos pretos recebiam um cuidado especial para serem sempre brilhosos, e aparentemente, macios — e cheirosos. Apesar de sua presença agradável, eu estava ansiosa para escapar.
Andei na ponta dos pés e precisei empurrar um pouco a porta entreaberta para conseguir passar pelo vão. A cabana estava inteiramente escura, só se ouvia grilos e seja lá o que mais gritasse na floresta à nossa volta. Se eu estivesse com o luxo de pensar em outras coisas, provavelmente estaria apavorada com a possibilidade de recebermos visitantes não racionais indesejados.
Não havia preparado uma desculpa para sair do quarto — nem pensei que precisava de uma — quando notei as costas nuas de Justin no meio da sala. Ele se postava em frente a lareira, agora acesa, com as mãos nos bolsos de uma bermuda cinza surrada. Quando virou a cabeça ligeiramente para mim, imaginei que tivesse ouvido meu coração estupidamente acelerado.
— Teve pesadelo? — ele perguntou, analisando meu rosto.
Meus olhos estavam úmidos outra vez, mas eu corava só de pensar em explicar. Me aproximei devagar dele.
— Como ela é? — minha voz não passou de um sussurro.
Ele pensou um pouco para responder.
— Patricia?
Fiz que sim com a cabeça, me detendo uns três passos atrás dele. As chamas na lareira destacavam sua musculatura ridiculamente perfeita. Minhas pupilas derreteram por ver as curvas delineadas em suas costas. Pensei que meu coração explodiria.
Ele deu um sorrisinho de lado e, na verdade, meus ovários explodiram.
— Incrivelmente estupenda. Tem olhos azuis gigantes e calorosos. Eu queria encontrá-la nem que fosse para jogar algumas verdades em sua cara, mas, me explicou que foram os Biebers que a afastaram. George ameaçou cortar minha garganta caso ela se aproximasse. A despejaram de volta no Canadá, e desde então, tem vivido lá. Me contou sobre alguns falhos resgates que tentou fazer e em como ela voltava para casa e planejava os próximos pacientemente. Depois que me tornei um homem, ela viu que a escolha era minha, e estaria pronta para lutar comigo quando eu voltasse para casa.
Partilhamos um olhar comovido. Eu não havia me esquecido do seu medo de rejeição quando falava sobre a mãe, a sombra de pavor — sentimento que raramente o perturbava — espreitando seu rosto. Aquilo era uma vitória para nós dois.
— Bruce e Diane são igualmente amáveis. O pai biológico de Patricia faleceu de um ataque no coração quando ela ainda era uma criança e ele já estava divorciado de Diane. Apesar de tudo, eles são uma família e tanto — notei o brilho crescendo em seus olhos de mel — Diane tem mais um filho, chamado Chris. Eles almoçam juntos aos domingos e são muito acolhedores.
Mal podia acreditar que ele havia conseguido conhecê-los. E pensar que me martirizei por achar que eu havia feito com que perdesse essa oportunidade. Eu estava tão feliz que podia chorar.
— Não queriam que eu voltasse para cá, mas respeitaram minha decisão. Nunca me senti tanto como um ser humano nos dias em que passei lá. Mas eu tinha negócios a resolver.
Concordei, pensando em Maxon e Yasmin. Ou Jaxon e Jazmyn. Ainda era difícil compreender que eram as mesmas pessoas.
— Eles vieram tranquilamente comigo, sabia? — seus pensamentos foram para o mesmo lugar que os meus — Felizes por saber que eu os havia “adotado”, embora tenham achado estranho sairmos no meio da noite, e se chateado por não poderem se despedir dos amigos. Prometi que os levaria para uma visita em breve. E eles... perguntaram de você.
O sentimento de culpa se arrastou para mim lentamente. Eu os havia abandonado. Paradoxalmente, o fiz justamente por estar a procura deles mesmos.
— Eu... também prometi que te veriam em breve.
Secretamente, me senti satisfeita. Em parte, porque os veria novamente, e em outra, porque ele não se livraria tão fácil de mim. No Canadá ou não, eu me certificaria de visitá-los com frequência.
Então lembrei que, no momento, Patricia era quem cuidava deles, e me perguntei se Justin se mudaria mesmo para lá depois de resolver meu contrato. O bom senso me dizia para mandá-lo embora imediatamente. Ele estava com sua família — tecnicamente — completa, com tudo o que sempre quisera, não precisava correr um risco por minha causa, mesmo que estivesse em dívida comigo. Só que eu não conseguia. Parecia injusto que fosse obrigada a mandá-lo embora para longe de mim. Outra maldita vez.
— Sinto falta deles — me limitei a confessar.
Ele assentiu e pegou o atiçador para cutucar a lareira sem necessidade. Era engraçado o contraste de um homem que demonstrava não estar com frio se aquecendo na beira do fogo.
— Sente da sua família também?
Entendi porque evitara meus olhos. Como um reflexo, me fechei instantaneamente, contendo uma careta.
— Ainda está furiosa com eles?
— Quem não estaria?
— Você sabe que a vida é inconstante, certo? Tem certeza que já disse tudo o que queria a eles? Se eles se fossem amanhã, ficaria com a consciência limpa?
Fechei a cara pra sua expressão de monge no 21º retiro, a raiva vindo a tona. Eu não aceitaria moralismo vindo dele.
— E você? Está com a consciência limpa?
Justin meneou a cabeça, largando o atiçador.
— Depois que eu cumprir este trabalho, talvez fique.
Trabalho? É isso que significo agora de novo? E quanto a mim?! Eu queria gritar. Mas se aprendi uma coisa com Flê, foi a não mendigar atenção de ninguém.
— Jesus morreu numa cruz por você, na maior demonstração de amor que o mundo já viu. Você vai implorar por afeto de alguém? Não enquanto eu viver, Faith Evans! — isso me fazia sentir muito melhor quando eu era excluída de algum grupinho inútil da escola. Quem precisava da amizade deles quando se tinha a de um Rei?
Com pesar, percebi que dei as costas a Esse Homem por pensar que Ele de alguma forma era responsável por uma morte que não havia acontecido.
Burra, burra, burra.
Não soube onde esconder a cara. De qualquer forma, não há como se esconder de Deus. Bem que o Senhor podia ter me contado onde esse otário estava. 
— O que acha de ir dar uma descansada agora? — Justin me puxou de volta a terra.
Cruzei os braços.
— Você acha que eu deveria?
— Eu sei que não tem dormido bem, por isso penso que seria melhor. Mas se não quiser, ninguém vai te forçar.
Ele andou pela sala, prendi a respiração quando passou ao meu lado, seu calor emanando de uma forma impossível para mim, me envolvendo. O observei se sentar no sofá e sugerir despreocupadamente:
— Ou poderia se sentar comigo e conversarmos. Ou outra coisa que queira fazer — acrescentou rápido, pigarreando de desconforto depois. Eu já soltava as asas da imaginação em quais "outras coisas" podíamos fazer — Não estou te dando opções porque acho que tenho controle sobre você... É só que... — se calou.
Era ótimo que não soubéssemos mais lidar um com o outro. Ignorei o fato perturbador e inseri um novo assunto:
— Fez alguma nova tatuagem?
Ele percebeu o que eu estava fazendo antes de mim mesma. Queria saber os detalhes desse tempo em que esteve fora. Eu sabia que não ficaria os quase seis meses apenas no Canadá, e para estar vivo e bem saudável na minha frente — até demais —, precisara de dinheiro. A Companhia tinha ficado com seus bens, então, a menos que possuísse uma conta secreta para guardar dinheiro, precisara prestar serviço.
Recostou-se, o olhar reservado feito um criminoso em interrogatório.
— Possivelmente.
Que tipo de resposta era aquela?
Mexi no meu cabelo, tentando parecer distraída e indiferente.
— E fez um novo corte de cabelo — observei.
Ele assentiu.
— Passei a zero. Não podia andar por aí como sempre.
Quase disse que ele ficava fascinante de qualquer jeito. Mordi minha língua.
— Você está pensando seriamente em falar com Maya amanhã?
Justin esfregou o queixo, endurecendo o olhar. Sua habilidade de odiar pessoas de uma hora para a outra permanecia intacta, percebi.
— Podemos ter concepções diferentes sobre “falar”, mas, basicamente, sim.
— É perigoso, ela pode contar para George sobre você.
Ele deu um sorriso sombrio.
— Depois de me encontrar, ela não vai ser capaz de falar mais coisa alguma.
Um arrepio desceu por minha espinha. Depois de toda confusão causada, eu não devia sentir compaixão dela, devia? Em todo caso, a culpa era minha por ela estar enrascada. Eu a envolvi para descobrir o paradeiro de Jazmyn e Jaxon. Mesmo que suas escolhas a transformassem em um ser humano egoísta, eu não me via muito diferente dela agora.
— Acho que se eu pudesse conversar melhor com ela, a convenceria a mudar de ideia. Ela só está preocupada com a própria vida, não está pensando direito.
Sim, senhora e senhores, eu estava defendendo Maya Milles, e aquilo me deixava um gosto amargo na boca.
— Faith, conversas não resolvem essas coisas — meu nome soou melodioso de seus lábios.
Me dei um beliscão mental.
— Conversas resolvem muitas coisas.
Se ele percebeu a alfinetada, ignorou.
— Mas não questões como essa.
— O problema é meu — bati o pé — Não pode me tirar da jogada. Você chegou agora, não vai simplesmente tirar meus assuntos da minha mão — me irritei.
— O que está pedindo? Quer ir comigo fazer uma pequena visita à ela?
— Não estou te pedindo nada — o corrigi — Estou dizendo que eu vou fazer uma visita à Maya, e, se você quiser vir junto, ok, mas vai me deixar monopolizar o desenrolar da situação.
Supus que ele fosse ficar irritado ou coisa parecida, porém, eu vi um traço de humor passar por seu rosto.
— Mais alguma exigência, senhora?
Sim, defina, estritamente, seu tipo de relação atual com Annelise!
— Quero ir junto atrás do contrato. Não vou ficar aqui como uma Rapunzel com mais cabelo do que cérebro.
— Certo. E o que faremos com seu amigo? Vai deixá-lo sozinho? — um músculo saltou em seu maxilar.
— Não. Vamos deixá-lo na galeria, depois vamos conversar com Maya, e só assim, ir atrás do contrato. Caleb e Hanna podem ficar rodando pela cidade por um tempo. E, ah, sou eu quem vai entrar na sala de George — completei firme, muito mais corajosa do que me sentia.
— Quer andar no arco íris com doendes atrás de um pote de ouro também?
Fingi um sorriso.
— Minha vida, minhas regras.
Ele assentiu vagamente sem me olhar nos olhos.
— Conversamos com Ryan amanhã.
Mesmo depois de todo esse tempo, eu ainda sabia reconhecer quando Justin descreditava sua própria palavra. Mas se ele pensava que esta não seria a forma do dia proceder amanhã, estava enganado. Fingi não ouvir a voz que me dizia que isto, coincidentemente, também me beneficiaria em não deixá-lo sozinho com Annelise.
— Posso te perguntar uma coisa? — murmurou ele, dissolvendo lentamente o assunto tenso.
Troquei o peso de perna, percebendo que eu estava, no fundo, exausta. Na noite passada, havia tirado no máximo um cochilo, e gastara mais energia hoje do que me permitia a quota da semana.
— Diga.
Justin relaxou o corpo no sofá, abandonando a postura ereta que assumia minutos atrás, talvez na intenção de instaurar a informalidade entre nós dois. Do mesmo jeito, meus nervos se debatiam.
— Ainda quer fazer medicina?
Quase suspirei de alivio pela pergunta feita, e então, parei para pensar. Meu futuro se encontrava estagnado no momento. Eu não tinha tempo para minhas ambições, ocupada demais em me livrar da minha culpa. E agora, talvez eu pudesse voltar a planejar. Se sobrevivesse até o mês que vem.
— Hmmm... Se eu for fazer uma faculdade, acho que sim.
— Se não for, planeja continuar trabalhando na galeria?
Lutei contra meu impulso de me sentar. Justin tinha uma onda radioativa que gerava falência em todos os meus órgãos vitais.
Dei de ombros.
— Até gosto de lá. — Gostar era exagero, admito. Mas, sinceramente, do que eu gostava ultimamente? — E você? Planeja voltar a trabalhar para o seu avô? — me senti no direito de perguntar, já que ele o fazia.
— Não se eu puder evitar. De qualquer forma, acho que ele me mata antes.
Justin ficou parcialmente distante, as mãos se fechando em punho.
Não sei se por vislumbrar certa vulnerabilidade nele — o que me comovia mais do que tudo —, ou por ser vencida pelo cansaço, me direcionei a passos incertos para o sofá, me sentando a duas pessoas dele. Não adiantou nada, a radioatividade foi capaz de me alcançar dali.
Justin me olhou pelo rabo de olho, dando o fantasma de um sorriso devido a minha pequena brecha.  

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

One Love 20

Eu nunca tive paciência para esperar. Sempre me pareceu como perda de tempo. Só temos uma vida. Os segundos são preciosos. Gastá-los vegetando não é uma coisa inteligente a se fazer. Naquela ocasião, contudo, era necessário. Precisávamos esperar meu cérebro processar todas as novas notícias, e, só assim, fazer alguma coisa sobre.
Mas Justin também não era um homem de esperas.
— Diga alguma coisa.
A julgar pelo seu modo de falar e me olhar, notava-se que a ansiedade o coagia a preferir que eu o esfaqueasse a contribuir com a agoniante expectativa. Expectativas são terríveis, eu não podia discordar. Ele mesmo me fez criar muitas. A pior delas foi ano passado, quando imaginei que ele forjara a própria morte para fugir comigo. Passei longas noites em claro no vento congelante que vinha da minha sacada aberta. No fim, ele havia forjado sua morte, mas para ficar longe de mim.
— O que você quer que eu diga?
Dentro de mim, eu podia sentir que a organização se findava. Logo mais, meu cérebro teria elencado a emoção predominante.
— Não cabe a mim decidir isso.
Deboche fresquinho permeou meu rosto lentamente. Aquela era uma novidade. Eu não tinha uma expressão específica desde que o vira no campo.
— Tem certeza? Sempre é sobre você. O que você acha melhor pra mim, quem, quando e onde. Não quer me dizer como devo me sentir também?
— Nunca quis que parecesse dessa forma.
Justin não ia negar aquilo, muito menos admitir, mas ambos sabíamos da verdade. Ele determinou quando começaríamos uma relação superficial — depois amadurecida — e mais tarde o nosso fim. Ou melhor, o meu fim. E mesmo assim, não pode me deixar fazer minhas próprias escolhas sem ele, empurrando Rafael para cima de mim com truques baratos ineficazes. Ele me manipulava desde o dia em que nos conhecemos, tomava decisões por mim e me moldava conforme achava melhor. Mesmo quando o assunto competia exclusivamente a mim. A ponto de ter fingido sua morte por pensar que eu merecia coisa melhor. Como uma pessoa adulta e plenamente capaz de fazer minhas próprias escolhas, ser minada dessa forma me deixava furiosa.
Pior, aquela não fora mais uma escolha banal que ele fizera por mim. Se tratava de algo que me agonizara por meses, me fizera perder minha identidade e por vezes desejar a morte. Ele me machucou da forma mais terrível existente.
E aí estava. Eu podia sentir a adrenalina vibrar desde a ponta dos meus dedos, me fazendo identificar o sentimento predominante escolhido a dedo por meu cérebro: raiva.
— Mas pareceu porque é a verdade. O que se passou pela sua cabeça, Justin? Nunca chegou a cogitar que essa decisão cabia a mim? Você deixou bem claro o seu ponto de vista de que não era a pessoa certa pra mim. Porém, sabia que eu tinha a opção de superar tudo por você. Você disse que mudaria por mim, e livremente, preferi participar da sua vida a ficar sem você. Eu havia acabado de descobrir que não podia te perder, e não sabe o júbilo que senti por ao menos sonhar com a hipótese do caminho que teríamos pela frente. Eu estava disposta a morrer com você naquele dia, e por mim, tudo bem, porque estávamos juntos. Então você simplesmente decidiu que eu tinha que seguir em frente dessa forma? Mesmo vendo tudo isso nos meus olhos e depois de dizer que me amava? — passei as costas das mãos no rosto, limpando-o. Eu não havia terminado — Não queira jogar toda a responsabilidade em cima de mim. No fundo, você estava mais sendo covarde. Se assustou com a possibilidade de amar alguém além de você mesmo e se entregar para essa relação. Fugiu da sua promessa de mudança porque não queria arranjar forças pra isso. E ao invés de ter coragem e me olhar nos olhos pra me contar, teve a capacidade de me fazer pensar que estava morto.
Embora estivesse meticulosamente imóvel, eu podia ver em seus olhos o quanto minhas conclusões o perturbavam. Sua cabeça já negava ligeiramente antes que ele me rebatesse.
— Faith...
— Você me viu agonizar e não fez nada! — de repente, minha voz saiu num grito.
— Eu achei que estava fazendo o melhor pra você, depois daquilo, melhoraria.
Olhei bem para a cara maravilhosa dele. Como uma criatura com rosto de anjo podia causar uma dor dos infernos? Mais uma prova de que ele estava vivo, o fato de despertar sentimentos tão contraditórios em mim simultaneamente. Eu queria abraçá-lo para nunca mais soltar e esmurra-lo até todo o sangue jorrar de seu corpo em partes que ele nem achava possível.
— Odeio ter feito isso com você, odeio que tenha passado por tudo isso por minha causa, como odeio o dia em que você teve o infortúnio de me conhecer.
Ele ultrapassou os limites. Foi o que bastou. Reverberou pela campina o tapa que dei em seu rosto. Imediatamente, a marca da minha mão emergiu em sua pele clara. Meu gesto não foi surpresa pra ele, mas para mim. O sangue foi sugado de minhas veias e dei um passo para trás como se pudesse retirar a violência. Repudiei-me por lhe causar dor, mas não pediria desculpas por isso.
— Esse é o mínimo que mereço. De qualquer forma, não me arrependo de ter tentado me apagar da sua vida.
Palavras erradas. Comandada por um impulso impossível de resistir, fundamentado em minhas “novas habilidades”, atingi o outro lado do seu rosto com um gancho de esquerda. Meu professor de Krav Maga nos fazia praticar com as duas mãos, ele ficaria feliz em saber que estava funcionando.
— Meu Deus! Para de falar merda! — aquele era mais um pedido do que uma repreensão. Eu não estava no controle do meu corpo.
Segurei minhas mãos contra o peito, sentindo certo desconforto nelas — para não dizer dor. Além de servir como conforto, me inibiria para um próximo golpe.
Com a boca entreaberta, ele massageou a maçã do rosto.
— É o momento errado para dizer que estou orgulhoso? Ainda mais com a mão esquerda? Foi muito bom. Sei que você é destra.
O QUE, RAIOS, ELE ESTAVA DIZENDO?!
— Deve ser uma das únicas coisas que você sabe sobre mim agora. Que porra você pretendia jogando Rafael pra cima de mim?!
Ele respirou fundo devagar, sem pressa para falar. Ambos sabíamos que não importava o que dissesse, não isentaria sua culpa. Eu estava num processo de desabafo, não a fim de uma conversa civilizada.
— Eu só... queria que fosse feliz — respondeu sério, o queixo duro como se preparasse para outro soco.
De fato, o cerco que fiz em volta do meu peito não foi funcional, mas agora meus punhos se chocavam contra seu tronco num todo, seguidas vezes, misturados com minhas gemidas de esforço e frustração.
— Eu só precisava de você para ser feliz! Seu idiota!
Justin me deixou descontar minha ira toda em seu corpo feito um saco de pancada petrificado até que minha carga emocional sugasse minha força física, tirando a firmeza dos meus joelhos de modo que eu desabasse sobre eles. Ele me pegou antes que eu atingisse o chão, me lembrando vagamente do dia da explosão, mas era Ryan que me segurava.
— Você não precisa de ninguém pra ser feliz, Faith — ele sussurrou em meu ouvido — E essa foi uma das coisas que sempre admirei em você. Uma pessoa como eu nunca deveria ser capaz de roubar sua luz.
De forma entrecortada, por causa do choro que nunca cessava, respirei o perfume de seu pescoço quente. Quis levar minhas mãos, no momento fechadas e esmagadas contra nosso corpo, até sua nuca. Mas eu só precisava ficar quieta esperando a inflamação que a ferida tinha deixado passar.
Algumas questões ainda não esclarecidas infestaram meus pensamentos, dando um sentido diferente ao seu toque, e até mesmo ao seu aroma. Por isso, fui motivada a me afastar. Agora mais do que antes, era como abandonar uma parte da minha carne. Me abracei, afundando meus dedos na pele dos braços cobertos pelo macacão ridículo depois de limpar meu rosto pela milésima vez.
— Faith? Está tudo bem? — a voz de Rafael veio carregada de reservas pelo ar fresco.
Parado na porta de braços cruzados, representava uma clara fortaleza, ameaçadora para Justin e reconfortante para mim.
Fiz um rápido sinal com a cabeça, que não foi levado em conta por ele, permanecendo ali como meu guarda costas.
A expressão de Justin ficou impassível outra vez. Ele apontou com a cabeça para a cabana.
— Você deveria entrar, descansar e comer alguma coisa.
— E você?
— Quer saber se vou entrar?
Arqueei uma sobrancelha, aquilo era óbvio demais para que eu precisasse responder.
Ele deu de ombros.
— Sei quando não sou bem-vindo em um lugar.
Uma vez, quando tinha meus sete anos, minha mãe me levou ao shopping com ela, e quando estávamos dentro de uma loja de roupas, me distraí entre as araras e corredores, usando minha criatividade para criar uma realidade alternativa divertida. Meu sorriso sumiu imediatamente assim que percebi que a tinha perdido de vista. A loja era enorme, pessoas desconhecidas e apontadas como mal-intencionadas para mim desde o berço — não fale converse com desconhecidos, eles podem te sequestrar — andavam para todos os lados, algumas lançavam olhares simpáticos demais para mim. Eu fiquei apavorada e não queria demonstrar a ninguém para que não se aproveitassem da minha vulnerabilidade.
Bom, o sentimento agora era o mesmo, um pavor terrível de o perder de vista que me dava enjoos. Um pavor que eu não queria demonstrar.
— Como se isso te impedisse de alguma coisa — respondi ríspida, uma tentativa ridícula de lhe incentivar a ficar — Ryan disse que não devemos ficar perambulando por aí para que não descubram nossa localização. Se você estragar tudo, eu arranco suas tripas com um canudinho — reforcei.
Ele tentou não demonstrar que achara engraçado e olhou de Rafael para mim, cético.
— Tem razão.
Ficamos os dois parados. Quanto a mim, eu só queria ficar ali sozinha com ele por mais um tempo, mesmo que fosse brigando. Me sentia satisfeita em poder ficar brava e lhe dirigir palavras agressivas.
— Damas primeiro — apontou para a porta.
Fiz questão de não me mexer, teimosa. Eu não o perderia de vista em nenhum segundo. Justin semicerrou os olhos para mim, desconfiado, mas passou na minha frente. Rafael abriu espaço para que entrássemos, encarando Justin de cabeça erguida, uma atitude comum de um irmão mais velho — embora mal nos conhecêssemos para caracterizar algum vínculo afetivo concreto —, e nada inteligente, tendo em vista para quem se dirigia. Justin devolveu o olhar com uma superioridade quase natural para sua pessoa, como se fosse, de fato, membro da realeza. Secretamente, sempre imaginei que ele podia desafiar um leão com sua postura, feito um filme do Tarzan.
A sala e a cozinha estavam vazias, então pressupus que Caitlin e Ryan estivessem brigando em algum dos quartos. Uma briga estranhamente silenciosa, já que não conseguia ouvir seus gritos. Justin se sentou no sofá com tranquilidade, apoiou o cotovelo e começou a passar a ponta do dedão e do indicador no lábio distraidamente, a atenção completamente voltada para mim. Nem mesmo o tempo pudera roubar sua característica singular de transformar majestosamente um ambiente antes sem cor. Se Rafael não começasse a falar, eu ficaria petrificada no meio da sala como um cachorro na vitrine do açougue.
— Sua amiga me contou.
Rafael se encostava na lareira apagada, uma bolha de indignação contida o cobria da cabeça aos pés. Eu não sabia o que exatamente Caitlin havia dito, então esperei que continuasse.
— Sei que Maya quer te fazer mal porque você a usou pra descobrir alguma coisa; que aqueles dois no jogo são amigos dela e por isso te levaram, e ao contrário dela, não querem te machucar. Eles apenas queriam terminar de te passar a informação porque também estão interessados no resultado, mas você não sabia dessa intenção e por isso lutou contra. Sei que esse cara — ele apontou o queixo para Justin — é seu ex otário que sumiu do mapa e agora reapareceu do nada, deixando tudo mundo furioso. E se quer saber o que acho, Caitlin não chegou a confirmar, ele é aquele jogador que estava junto da loirinha no campo, o que não pode significar boa coisa.
— Cuidado com a linguagem — Justin lhe deu aquele sorriso duro pontiagudo.
Caitlin passara a informação de forma mais superficial possível — e tenho certeza que só o fizera para poder difamar Justin para mais alguém — deixando os detalhes por minha conta, á que pelo menos ela sabia quando alguma coisa competia a mim. Precisei apenas de meio segundo para concluir que preferia que Rafael não soubesse a espécie de problema com que eu estava lidando. Ele não precisava entrar nesse mundo completamente incapacitante em que nem mesmo a polícia podia ajudar. Ryan mesmo dissera, quanto menos soubesse, melhor.
O assunto predominante em minha mente, entretanto, se resumia ao modo que ele usara para se referir ao Justin. Meu ex otário. Agora que eu sabia que ele estava vivo, era isso que representava para mim? Não chegamos, tecnicamente, a terminar, certo?
— Ouça — ele se voltou completamente para mim, ignorando Justin e seu mal humor — Eu não pedirei que me conte no que está envolvida, mas queria que soubesse que pode contar comigo, eu te ajudarei no que for possível — os cílios grandes de Rafael fizeram sombra embaixo de suas pálpebras, reforçando a intensidade de suas palavras. Me lembrei do dia anterior e em como me senti confortável perto dele, quase me fazendo esquecer meus problemas elefantosamente gigantes.
Qualquer um ficaria desconcertado sendo alvo do olhar extremamente expressivo partindo de um homem daqueles. Eu não me excetuava a regra. Retribuí com um sorriso amarelado, mas, genuinamente grato. Se fosse comigo, eu bateria o pé até que me contassem o que estava acontecendo. Não gostava de ficar por fora das coisas — muito menos se fosse indiretamente envolvida.
— Eu agradeço. Não queria te meter nisso, desculpa. Prometo que resolvo rápido e provavelmente amanhã você retorne à sua casa —eu disse. Ele apenas franziu o nariz e balançou a cabeça, como se não se importasse — Annelise te machucou muito? — preocupei-me, atentando meus olhos a um leve inchaço em seu braço esquerdo.
— Não. Tá tudo bem.
— Quer um pouco de gelo? E a cabeça?
— Gelo seria bom.
Calculei a distância entre a cozinha e Justin, me perguntando se conseguiria vê-lo de lá. Descartando minhas preocupações, ele se colocou em pé com um suspiro.
— Quem está com fome?
Segui-o até a cozinha, abrindo a geladeira enquanto ele fuçava nos armários. Tirei a fôrma de gelo quadrada e transparente do congelador, enrolando quatro das pedras no pano de prato que encontrei em cima das louças no escorredor.
Rafael estava bem atrás de mim, então só precisei me voltar vagamente em sua direção para lhe entregar.
— Obrigado — agradeceu.
Justin havia colocado uma panela funda e cheia de água no fogo, o macarrão extrafino estava na pia. Eu não podia acreditar que ele cozinharia mesmo.
— Você tem alergia às massas, Rafael? — seu tom de voz estava neutro.
— Não.
— Ótimo.
Indaguei-me o quanto Justin se divertiria se causasse uma reação alérgica em Rafael. Mas ele se concentrava demasiadamente no que fazia para que eu pudesse interpretar sua expressão. De repente, a cozinha ficara pequena demais para nós três.
— Faith, por que não vai tomar banho enquanto preparo o jantar?
— Está sugerindo que estou fedendo?
O canto de sua boca se esticou com humor.
— Longe de mim dizer uma coisa dessas.
A ideia de me afastar dele me dava calafrios. E deixá-lo sozinho com Rafael não me parecia uma ideia muito inteligente. O cheiro de inimizade poluía o ar, contrastando com sua “boa vontade” de nos unir como um casal.
— Sério, você precisa dar uma relaxada. Nós vamos ficar bem.
O encarei. Por que ele queria tanto que eu saísse de perto?
— Eu vigio para que ele não envenene a comida — Rafael incentivou.
Os dois me queriam fora. Com certeza não resultaria em boa coisa. Fiquei alguns instantes os avaliando. Acabei concluindo que aquele era o tempo propício para tomar um banho se quisesse. Justin estava ocupado, o que lhe dava menos chances de desaparecer. Rafael também lhe serviria de distração, estava claro que queriam falar sobre coisas que não falariam na minha frente. E eu não precisava me preocupar tanto, não? Os dois eram bem grandinhos para se cuidarem sozinhos.
Mentalizei Annelise e seu cabelo macio com cheiro de lavanda, o corpo exalava uma essência fresca e convidativa essa tarde. Bem ao contrário de mim, no momento. Eu necessitava, urgentemente, de um banho.
Levantei um dedo como advertência para os dois.
— Eu volto em cinco minutos. Não ousem sair daqui ou enfiarem coisas um no outro.
Os dois pararam para me jogar um olhar mortal. Percebi o duplo sentido que poderia ter a última frase e tive que me segurar para não rir alto, levantando um ombro para demonstrar que não me importava com as interpretações que quisessem fazer.
Praticamente corri até o quarto depois de dar uma boa olhadela em Justin. Me arrependi segundos mais tarde por me privar de vê-lo pelo período de tempo que fosse, com um nó no estômago. No chão do quarto estavam espalhadas todas as minhas coisas. Eu ainda não havia arrumado a bagunça que fizera madrugada passada. O motivo daquele caos confrontou minha consciência atual. Resgatei um short e camiseta sem prestar a atenção devida. Se a roupa estivesse rasgada, eu não perceberia.
Num piscar de olhos, me vi de volta à cozinha. Consegui respirar quando notei Justin em frente ao fogão, fritando bacon. Ele e Rafael me olharam sobressaltados, a linha firme na boca de ambos me pareceu estranha.
— Já tomou banho? — Justin perguntou, mesmo sabendo a resposta.
— Não.
Outra corrida até o banheiro do quarto e uma nova onda de arrependimento ao fechar a porta. Me despi em tempo record, só me lembrando depois de abrir o armário em busca de sabonete, shampoo e condicionador. Encontrei-os ainda embalados e os abri enquanto me enfiava ligeiramente embaixo do chuveiro. Derramei uma porção de shampoo direto do frasco em meu couro cabeludo e esfreguei até as pontas como fazia para aquecer canetas que não funcionavam. O cheiro doce de morango se concentrou quando a água lavou a espuma que eu tinha feito. Enquanto deixava o condicionador se fixar em meu cabelo, passei o sabonete numa esponja e esfreguei em meu corpo com força para compensar a rapidez. Enxaguei o restante do produto e agarrei a toalha banca, me colocando fora do box. Não fiz um bom trabalho em me enxugar, mas passei de uma vez as roupas por minhas pernas e braços. Peguei a escova de cabelo redonda na primeira gaveta e passei violentamente em meus fios. Hanna teria um infarto com a cena, era extremamente cuidadosa com seu cabelo. Dizia aquelas frases que ganhávamos em biscoitos da sorte como “Você colhe o que você planta”. Então se queria um cabelo comportado e agradável, deveria tratá-lo com carinho. Eu não tinha tempo para carinho.
Foi preciso apenas uma olhada distraída no espelho para meu reflexo me chamar atenção. As olheiras estavam mais fundas; minha pele parecia suja e ressecada, cravos e espinhas salpicavam minha testa, uma parte da bochecha e o nariz; mesmo molhado, meu cabelo parecia gritar por socorro; e todo o meu rosto estava inchado como se eu fosse um boneco de posto de gasolina. Resumindo, eu estava com a aparência de um filhote de avestruz que cruzou com um bode. Perfeito, Faith. Muito bom.
Nem mesmo aquele ataque de autoestima baixa e insegurança me deteve no banheiro. Mandei um dedo do meio para o espelho e atropelei meus pés para confirmar mais uma vez que, teoricamente, eu não estava louca e Justin cozinhava no cômodo ao lado. Parei na entrada quando ouvi o murmúrio agressivo.
— Já disse que não tem com o que se preocupar. Não estou interessado nela.
— Então você é mesmo apenas mais um idiota, não é? — Rafael respondeu com a voz firme — Ela merece mesmo muito mais, aliás.
— Fiquei à vontade, vocês combinam. Não vou ficar por muito mais tempo, não se preocupe.