Leitoras com Swag

Hey garotas, beliebers ou não beliebers. Só estava faltando você aqui! Nesse blog, eu, Isabelle, faço IMAGINE BELIEBERS/ FANFICS. Desde o começo venho avisar que não terá partes hots nas Fics, em nenhuma. Repito, eu faço 'Imagine Belieber' não Imagine belieber Hot. A opinião da autora - Eu, Isabelle - não será mudada. Ficarei grata se vocês conversarem comigo e todas são bem vindas aqui no blog. Deixem o twitter pra eu poder seguir vocês e mais. Aqui a retardatice e a loucura é comum, então não liguem. Entrem e façam a festa.
" O amor não vem de beijos quentes. Nem de amassos apertados. Ele vem das pequenas e carinhosas atitudes."- Deixa Acontecer Naturalmente Facebook.
Lembrem-se disso. Boa leitura :)

Com amor, Isabelle.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

One Love 27

— Sua mãe vai ter um infarto — Hanna lamentou, avaliando comigo nossa obra em seu espelho grande na parede do quarto rosa bebê.
— Gostei — conclui satisfeita. O vestido simples sem mangas deslizava por minha pele em tule preto transparente até os pés. Embaixo dele eu usava apenas um Hot Pants e sutiã da mesma cor. Para os meus pés escolhi uma sandália de salto preta. Hanna reivindicou a responsabilidade de me maquiar nas cores que combinavam com o vestido e um batom vinho matte. Finalizamos com uma gargantilha de veludo preto e um brinco pequeno de prata com pedra preta. Deixei meu cabelo livre, leve e solto, portando sua natureza rebelde volumosa e ondulada.
— Gostou de como está vestida ou da possibilidade da sua mãe morrer do coração? Sabe bem como ela leva a sério essas coisas de pudor. Para essas festas principalmente.
Se eu não visse de perto a relação tensa que Eleanor e Hanna tinham, diria que minha amiga passara a tarde toda defendendo minha mãe, insistentemente tentando me dissuadir da minha causa. Hanna achava engraçado quando eu desafiava meus pais, até mesmo empolgante, e na maior rebelião dava para trás?
— Não podemos negar que você vai mesmo chegar com barulho. Uma entrada dramática. Ótima para furos de imprensa.
— Não estou ligando para o que eles pensam — desdenhei — Agora você está uma verdadeira princesa.
Hanna rodopiou em seu vestido de seda rosinha de gala com um decote simples em V caindo gentilmente em seu corpo, e terminou com um beijo no ombro. Estávamos praticamente dois opostos. Sua maquiagem leve era tão natural que podia passar despercebida. Da mesma forma, ela continuava elegante. Sua graciosidade inerente já garantia que chamasse atenção. Talvez ela tivesse percebido isso agora para gradualmente abandonar a maquiagem.
— Obrigada, querida.
— Podemos ir agora? — verifiquei as horas no celular, a festa já começara há vinte minutos, gastamos mais tempo do que o esperado nessa produção toda. A última notícia que recebi de Justin e Ryan era sobre estarem prontos e a caminho, recomendando que nos encontrássemos lá. Nosso suspeito aparentemente ainda não pousara. A pulga atrás da minha orelha estava inquieta.
— Claro! — e antes que eu pudesse dar um passo em direção a porta, continuou a falar — Podemos ter dois minutos de sinceridade antes de encontrarmos as meninas?
Como uma pessoa envolta por segredos, assumir uma postura defensiva não parecia desprovido de lógica. Por fora, porém, abri um sorrisinho terno e juntei as mãos.
— Como quiser. Há algo que queira me contar?
Previamente, eu sabia que o assunto se referia a mim, seus olhos se atentavam cuidadosamente a minha linguagem corporal. Não de forma agressiva, mais curiosa e compreensiva.
— Pode me contar o que aconteceu com você?
— O que quer dizer?
— Não sei como explicar. Você parece tão... melhor. Mesmo com todos esses problemas, parece que voltou a ter aquele brilho no olhar. Reparei durante o dia todo. É claro que está inquieta o tempo todo, e com motivos, mas não mais... se afogando em dor. E isso é ótimo — acrescentou rápido para que eu não fizesse interpretações indesejadas — Só quero saber o que mudou, como fez isso.
Eu realmente pensei que Hanna, Hanna Marin, não notaria alguma coisa diferente?
Abri a boca muitas vezes para responder. Em nenhuma delas tive uma resposta na ponta da língua. Eu não podia mentir para aqueles olhos compassivos e grandes, me sentiria, no mínimo, um monstro.
— Tem a ver com Rafael? — me incentivou, mais ansiosa.
Rafael certamente podia ser um ponto de conforto. Porém, absolutamente não era o responsável por eu não mais me sentir amarrada em um espeto rodando numa churrasqueira.
— Ele é uma ótima pessoa, mas...
— Mas nada — me interrompeu, o sorriso ligeiro esperançoso — Vamos dar tempo ao tempo. No final, tudo vai se encaixar.
Não menti, só que do mesmo jeito me julguei uma péssima pessoa. Hanna interpretara meu receio de modo errado, afobada do jeito que era, e eu não podia lhe contestar sem apresentar minhas motivações.
No andar de baixo, Caitlin e Maya também já estavam prontas, sentadas cada uma em um sofá. O dia de meninas se mostrou ineficaz em extinguir a rivalidade e desconfiança — por minha parte também —, porém, acalmou os ânimos. Aliás, o convite de nos arrumarmos todas na casa de Hanna partira da própria. Todas escolheram vestidos formais, um vermelho para Maya com decote até o umbigo e verde tomara que caia para Caitlin. Eu tentava não pensar muito na ideia de estar expondo praticamente meu corpo todo, coisa que me deixava completamente desconfortável.
Maya faiscou de empolgação ao me ver. Caitlin riu.
— Não podemos negar que está estilosa — pontuou.
— Não há nada de errado com esse vestido, ele apenas não cabe para esses ambientes — Maya acrescentou com um sorriso maléfico. Tive a impressão de que se ela já não estivera em uma situação dessas, gostaria de estar. Exposição era praticamente seu sobrenome.
Por outro lado, a mãe de Hanna, uma figura de um metro e sessenta de altura — o que a proporcionava, ou abençoava como costumava dizer, a abusar dos saltos —, cabelos louros ondulados artificialmente até o meio das costas, arregalou os olhos sem perceber.
— Ah! — exclamou, surpresa — Precisamos buscar seu vestido em algum lugar antes de ir?
Uma forma bem singela de me acusar de estar pelada. Caímos na gargalhada.
Para alguém que não gostava de ser o centro das atenções, eu causaria uma impressão e tanto naquela noite. Já ajudava se o real contratante estivesse presente. Para agir, teria que me atrair a algum lugar mais privado onde olhos não me seguissem o tempo todo me taxando de escandalosa e inconveniente. Hanna havia dito que especulavam se eu havia me tornado uma espécie de Miley Cyrus. Pois bem, eu lhes daria Miley-Wreaking-Ball.
Conforme eu me aproximava da casa, tive impressão que colocaria tudo para fora, sem deixar as tripas isentas dessas. Pensei em como Justin conduziria a investigação se nem dar as caras ele podia. Pensei — e quando o fiz tive um arrepio na espinha — na possibilidade de ser verdade e em como aquilo nos afetaria. Pensei que talvez eu estivesse exagerando em provocar Eleanor de tal modo em seu aniversário. Pensei em como eu realmente detestava — tinha pavor — em ser produto de curiosidade de olhos julgadores e andar com poucas roupas. Pensei em conciliar tudo isso com Maya ao meu lado sem deixar que soubesse o que acontecia. Acabei concluindo que eu fizera um grande ensopado de esterco, sabendo que o derramaria inteiro na minha cabeça.
Não dei um passo para fora do Honda Acord prata da Sra. Marin e desejei ardentemente dar meia volta.
— Respire fundo — Hanna me incentivou, o braço se enlaçou ao meu como apoio.
Fiz o mais parecido que podia com um meio sorriso e avançamos. Quase deixei de perceber que a frente do imóvel em que cresci não se abarrotava de carros elegantes como acontecia sempre que fazíamos festa. O volume diminuíra no mínimo em 1/3.
— Estamos mesmo atrasadas? — conferi a hora mais uma vez. Eleanor fazia questão de chamar a maioria das pessoas que conhecia para suas comemorações de aniversário.
— Sim. Estão a nossa espera.
Reconfortante era ter confirmado que minha presença era esperada. Como se eu precisasse de mais alguma coisa para chamar atenção. Verifiquei mais uma vez se Justin respondera minha mensagem de “Já chegaram?”, mais nervosa do que o esperado. Pensei em ligar pra ele, mas antes troquei um olhar com Caitlin para saber se já estávamos prontas para entrar. Se colocando ao meu lado esquerdo, ela assentiu pra mim.
Expirei e segui o caminho da entrada com a sensação de que a casa era maior do que eu me lembrava. Para alguém que vivera em um apartamento, eu finalmente me questionava por que quatro pessoas precisavam de tanto espaço assim. Os três andares estavam iluminados, embora eu duvidasse que tivesse alguém até o segundo. Diferente da maioria dos imóveis por ali, o nosso se construía em tijolo vermelho, uma medida preventiva de Bryan que basicamente nos salvou quando ocorreu o incêndio em meu quarto ano passado. Se o material se limitasse a madeira, perderíamos praticamente a casa toda. O telhado vintage era pontiagudo nas pontas da casa e menor no meio, como se fosse a junção de três casas em uma só. Meu quarto — ou meu antigo quarto — ficava na ponta da esquerda, vendo de frente. E desde pequena, me sentia como uma princesa numa torre. Bem como esperava papai noel descer por nossas duas chaminés. A ideia de restaurar uma casa antiga fora de Eleanor, ela adorara o charme desde a primeira vez que a vira.
No momento, a entrada de casa contava com no mínimo uns oito seguranças, um para cada janela grande, e mais dois para a porta. E eu não conhecia nenhum deles. A ideia da torre de um castelo não me parecia tão absurda agora. Nos identificamos com o careca de pele escura que tinha cavanhaque bonito e olhar marcante. Se eu conseguisse me interessar por outra pessoa, ele com certeza entraria na lista.
— Faith Evans? — ele me olhou curioso quando dissemos meu nome por último, fixando-se em meu rosto — Seja bem vinda de volta, senhorita.
— Obrigada.
A porta foi aberta enquanto ele estendia a mão educadamente para que passássemos. Por minha visão periférica, eu percebia as sobrancelhas de Maya um pouco elevadas, fixando-se no segurança com exacerbado interesse. Ninguém podia culpa-la. Invejei o sorriso que ela abriu para ele, um misto de sedução, mistério e reserva que com certeza surtiu algum efeito. O homem apertou minimamente mais os olhos. Se eu soubesse sorrir assim conseguiria manter o interesse de certas pessoas em mim.
A sala de entrada se emaranhava com o aroma de um aromatizador de rosas e a inconfundível essência de gente fútil. Como enfeite, alguns vasos de flores peculiarmente azuis se empoleiravam nos cantos, e uma fita da mesma cor abraçava o corrimão de nossa escada como um cacho de cabelo. Havia mesmo uma fênix de gelo de quase um metro centralizada no fundo da sala?
Antes que eu pudesse fazer um comentário de deboche com Hanna, brotou uma mulher com um coque elegante e vestido preto básico até os joelhos portando uma bandeja de champanhe nas mãos.
— Bem vindas, senhoritas. Posso oferecer uma taça?
A julgar sua desenvoltura, Bryan e Eleanor haviam contratado uma recepcionista para a festa.
Todas pegamos uma taça e ela sorriu com aprovação, prestando mais atenção em mim.
— Senhorita Evans, seus pais estavam ansiosos por sua presença — deu meio giro, dando-nos novamente vista para as pessoas alocadas com taças parcialmente cheias em suas mãos.
Havia em média apenas umas vinte pessoas. Consequentemente, quarenta olhos fixados em nossa entrada. Para ser mais exata, na minha pessoa, terrivelmente perplexos. Senti o rubor violento ameaçar tomar conta do meu rosto e o proibi veementemente. Eu não tinha motivos para estar envergonhada.
Elevei o queixo e estiquei a boca de lado confiantemente como eu vira uma das mulheres assassinas fazer na televisão. A referência não era muito boa, entretanto, as pessoas tem mais dificuldade de rebaixar alguém confiante. Localizei Bryan e Eleanor no centro da sala de braços dados e combinando tons de azul. Não posso negar o leve aperto que senti no peito assim que coloquei os olhos neles, mas ignorei o sentimento e centrei na expressão de desaprovação que eu sabia tomar conta do rosto de ambos.
Estranhamente, seus traços apontavam certo toque de adoração devota. Caleb estava bem ao lado deles, então não dava para cogitar que estivesse perto de mim para justificar o teor da emoção que lançavam à porta. Ao se acostumarem com a minha presença, repararam o que eu vestia e aquilo lhes deu um breve franzir de sobrancelhas que sumiu quase na mesma hora. Eleanor deitou a cabeça minimamente, umedecendo sua íris castanha e sorrindo com ternura.
Aquela definitivamente não era a reação que eu esperava. Me quebrou no meio.
— Vamos nos aproximar — Hanna tomou a frente, me puxando de minha paralisia.
Quando dei por mim, já estávamos em frente a eles, e eu ainda não sabia o que dizer. O ambiente pareceu silenciar, deixando a responsabilidade sob Chopin com Nocturne op.9 No.2. Honestamente, dessa eu gostava. Devia ter alguma relação com minha mãe colocá-la para mim quando eu ia dormir desde que eu me lembrava.
— Boa escolha de repertório — elogiei, uma vez que todos me esperavam dizer alguma coisa.
Eles ampliaram os sorrisos, mas também não sabiam o que mais fazer. Pareciam tão vulneráveis que era covardia jogar os raios e trovões que eu preparei.
Estendi a mão para Eleanor.
— Feliz aniversário adiantado.
Ela olhou para minha mão.
— Posso te dar um abraço?
Pensei e repensei mais vezes do que posso contar, mas acabei cedendo.
Minha mãe me tomou em seus braços com cuidado, e só depois de perceber que eu não soltaria espinhos, se acomodou junto de mim o máximo que podia. Por um instante fiquei irritada. Eles não podiam confrontar tudo o que eu construíra assim, de uma hora para outra. Como um ponto de firmeza, eu podia ver a fênix de gelo da posição em que estava, me lembrando que as coisas que me afastaram dos dois não haviam mudado. Assim, me desvencilhei dela e estendi a mão para Bryan. Ele não recusou o gesto, mas mesmo assim me acolheu com a expressão suave. Difícil era ver Bryan com uma fisionomia assim.
Repentinamente, as portas da sala de estar se abriram e um coro saído de lá gritou: SURPRESA! Papéis laminados azuis se espalharam pelo ar quando explodiram tubos lança confete. Eu ainda tentava assimilar o que estava acontecendo quando a voz de Rihanna cantou:
— Don’t try to hide it, I’mma make you my bitch cake cake cake cake…
Hanna pegou os dois lados da minha cabeça e a direcionou para o centro da sala de estar. Os móveis cediam lugar para um mini palco onde ninguém mais, ninguém menos que Rihanna, trabalhada numa saia de couro apertada com uma fenda na coxa e camisa de alça do mesmo material, apontava o dedo para mim.
— Feliz aniversário, Faith Evans!
Eu passei segundos inteiros encarando aquela figura de queixo caído. Depois procurei respostas na minha melhor amiga que dava pulinhos empolgados toda radiante. Parti então para explicações em Caleb, ele segurava o queixo, numa expressão estranha entre diversão e pesar. Ao captar meu olhar, deu de ombros. Bryan e Eleanor tinham sorrisos gigantes no rosto. Gradativamente entendi que era uma festa surpresa de aniversário, mesmo que quinze dias atrasada, para mim.
Rihanna continuou a falar:
— Espero que tenha uma noite agradável hoje. Suba aqui para eu lhe dar um abraço.
Precisei ser empurrada por Hanna para me mexer. As pessoas abriram caminho para que eu chegasse até o palquinho e majestosamente Rihanna estendeu a mão para me ajudar a subir os três degraus — precisei mais do apoio do que pensava. Quando estávamos no mesmo nível, envolveu seus braços nas minhas costas toda presunçosa. Além de maravilhosa, talentosa, tinha um perfume muito bom.
— Meu Deus do Céu, é um prazer conhecer você — murmurei, surpresa que palavras coerentes fossem comandadas por meu cérebro em choque.
Ela deu sua risadinha graciosa em meu ouvido.
— Igualmente! — então se afastou para me olhar de cima a baixo — Uau, que mulher! — falou no microfone. 
Murmúrios de aprovação encheram a sala. Dessa vez, não pude conter o rubor em minhas bochechas. 
Pai Eterno a deusa grega aprovara minha aparência física.
— Essa é especialmente pra você, Faith! — Rihanna levantou minha mão e serpentinas de papel colorido caíram sobre a sala. Como um comando geral, a luz da sala de entrada apagou e o jogo de luz deltrônica passou a varrer os cômodos. O Dj que a acompanhava soltou o playback de Don't Stop The Music. 
Fui me afastando conforme ela começou a cantar, dividindo sua atenção entre mim e as pessoas abaixo de nós. Eu não sabia o que fazer em cima do palco — para ser justa, não só em cima dele, completamente desajustada. Me preparei psicologicamente o dia todo para vir a festa de Eleanor confrontar os suspeitos de contratarem uma Companhia de assassinos para me matar e me deparava com Rihanna na minha sala de estar? Uma cabeça só não daria conta daquilo.
 Mal desci as escadas e Carmen estava correndo na minha direção de braços abertos.
— Que saudade de você! Como está maravilhosa! Feliz aniversário!!!
No fim, minha roupa não era tão inadequada para a ocasião.
Essa foi a sequência da minha meia hora seguinte. Meus ex colegas da faculdade estavam todos ali, os que eu me dava bem pelo menos. Eu sabia que tinha mão da Hanna nessa festa por: primeiro, Rihanna estava cantando em uma festa minha, segundo, todos os rostos que eu via eram de pessoas que eu me dava bem. Com a exceção mínima de Clarissa, a qual veio me cumprimenta grudada na mão de Charles, e nem para me abraçar soltara o coitado. Ela estava com um vestido prateado tão brilhante que eu apostava que a destacaria mesmo que estivéssemos pisando no sol. Depois de me desejar felicidades se desembestou a falar como ela e Charles estavam apaixonados, afirmava de pés juntos que ela sabia que os dois ficariam juntos desde que colocou os olhos nele. O veneno básico que eu tinha dentro de mim quis perguntar se ela também o sabia quando ele me beijou em sua festa de aniversário, e, se estavam tão apaixonados assim, por que eu tinha impressão de que jogava alguns olhares de rabo de olho para Caleb? Uma pena que Charles não merecesse isso. Aliás, ela mal o deixou me cumprimentar.
— É ótimo que você possa estar aqui essa noite, Clarissa, agora nos dê um momento — Han deu um sorriso tão simpático que quem não a conhecesse pensaria estar sendo genuíno. Ela se enroscou no meu braço outra vez e foi me puxando para o canto.
— Barbiezinha, o que é isso? — Caitlin finalmente espumou o que queria dizer desde que estouraram o tubo lança confete.
Hanna tentou conter toda sua empolgação para me explicar, visivelmente preocupada.
— Planejamos essa festa há tempos, Faith, e eu cancelaria mesmo depois de tudo isso, mas você disse que não precisava cancelar. Pensei que não faria mal que não soubesse a verdadeira intenção dela.
— É lógico que faz toda a diferença. O que merda você estava pensando?! Por que não contou pra gente? — Cait prosseguiu com a ladainha.
Hanna não olhou pra ela, mas começou a roer as unhas de nervoso. Uma criança de cinco anos esperando a bronca dos pais depois de desenhar nas paredes da casa de canetinha. Mensurei os estragos que aquilo podia fazer e concluí que de fato não faria muita diferença. Era mais agradável que os convidados tivessem realmente alguma relação comigo — com exceção de alguns amigos dos meus pais que estavam na entrada da casa — e eu não via a imprensa se esgueirando pelos cantos também. Os detalhes foram planejados para me agradar, até mesmo nas cores. O momento não era propício para festa e trazer alguém como Rihanna para esse meio conturbado era desesperador, entretanto, como eu podia dar uma bronca em alguém que se esforçou tanto para tentar me fazer feliz?
— Você realmente conseguiu trazer a Rihanna, hein?
Hanna reluziu.
— Você viu?! Ela ainda concordou em fazer uma setlist especial. E eu tive que convidar a Clarissa para ver isso também, lógico! Aí ela já espalha pra todo mundo que a dona das festas é você!
Dei uma risadinha. Me preocupar com a rivalidade que tínhamos com Clarissa parecia a coisa mais besta a se fazer naqueles tempos.
— Ela não esperava por essa, tenho certeza.
— Então não está furiosa? — Hanna juntou as mãos, era mais um pedido do que uma pergunta.
— Como poderia ficar furiosa com você?
Ela me esmagou num abraço de leão.
— OK! Então podemos nos divertir e ainda cumprir a missão secreta. Onde está nosso alvo? — Han fez uma posição de ataque “superespiã” — Ah! Eu tenho que trocar de vestido. Posso fazer isso rapidinho? Ele já está aqui na sua casa, Caleb trouxe.
Caitlin grunhiu e virou a taça de champanhe na boca.
— Claro, Hanna.
— Sintam-se à vontade!
Ela agarrou o braço de Caleb e saiu saltitante.
Caitlin olhou séria para mim.
— Essa sua amiga tem algum problema mental, não tem?
A repreendi com a expressão, mas ela estava ocupada com o celular.
— Onde estão aqueles abutres?
Meu iMessage permanecia vazio. Olhei para a porta como se fossem aparecer todos por lá de repente.
— Claro — Caitlin resmungou — Ryan disse que estão chegando, eles foram até o aeroporto para escoltá-los.
— O que?! — eu arfei.
Imediatamente, disquei o número de Justin. Esperei na linha até cair na caixa postal. Duas vezes.
“Se você encostar neles eu vou cortar seu pinto, Justin Drew Bieber.”
Sem respostas.
“Nós combinamos. Você lembra?”
Nada.
“Eu juro pra você que se quebrar mais uma promessa pra mim eu te quebro no meio”
Só percebi que essa mensagem era emotiva demais depois que mandei. Então desisti de mandar ameaças. A tendência era só piorar.
— Fale para Ryan ordenar Justin olhar o celular — pedi para Caitlin.
Meio segundo depois ela me deu o retorno:
— Ryan disse que te ajuda a cortar o pinto de Justin se ele descumprir a promessa.
Maya foi a única a rir. Eu levava muito a sério minhas ameaças.
— Eu devia estar preocupada em como Justin vai entrar na festa? Ele com certeza não está na lista. E o tanto de seguranças que tem aqui limitam qualquer movimento.
Cait levantou as mãos como uma balança.
— Seguranças — pesou uma das mãos — Justin Bieber — elevou a que representava Justin com uma diferença gigante.
— Isso também me preocupa.
— Eles vão dar um jeito — descartou minhas preocupações.
— A gente pode pegar uma bebida de verdade? — Maya perguntou apontando para o barzinho improvisado perto do palco.
Não houve objeções. Havia nervosismo demais para o champanhe dar conta de tudo. Apanhamos nossos Cosmopolitan’s — para Maya Margarita —, e nos misturamos com a galera movida pela música. Eu balançava a cabeça e o tronco do corpo ordenadamente, levantando os pés de modo alternado, uma simulação de dança bem ridícula. Caitlin não se deu o trabalho de fingir, limitando-se a um balançar de cabeça genuíno de acordo com o ritmo, os olhos atentos a nossa volta. Maya se jogava na batida de forma tão resoluta que conquistava a atenção de pessoas a sua volta. Eu conseguia ver Kurt e Sam se preparando para falar com ela. Claro que ela também sabia dançar. Se Rihanna não estivesse no cômodo eu diria que roubava toda a atração para si. 
Lamentei que presenciasse seu espetáculo em uma situação daquelas. Toda a performance daquela mulher era de chacoalhar o espírito. Mas eu só conseguia dedicar-lhe alguns dos meus segundos. Aquilo podia ser considerado um crime.
— Faith, pra cozinha. Eu fico com Maya — Caitlin me instruiu apressada.
Seu tom e expressão não me davam tempo para perguntar. Meu primeiro pensamento foi Justin, então praticamente atravessei a sala correndo até chegar ao meu destino. Dei de cara com dois chefes com chapéu de cozinheiro e tudo preparando os lanches, pessoas uniformizadas em tons de azul saindo e entrando com bandejas. O primeiro que me viu centrou toda a atenção em mim.
— Olá, senhorita Evans. Tem algum pedido especial? Ou também não está se sentindo bem?
Ele já havia perdido meu interesse no “olá”, momento em que notei a elegância encarnada num terno grafite no fundo escuro da cozinha. Nunca poderia agradecer a Deus o suficiente a oportunidade de ver aquele homem de terno mais uma vez. Ninguém podia se equiparar a sua magnificência. Todas as outras coisas perdiam a graça perto dele. Justin franzia todo o rosto em minha direção, descaradamente avaliando meu vestido.
Se eu não estivesse tão desesperada para ter algum contato com ele, paralisaria bem ali, temendo sua opinião em relação ao meu vestido. De repente, me sentia nua. Não em um sentido aceitável. Alguém como ele já deveria ter visto corpos esculturais do mais diversificado tipo de mulher. Minhas formas não malhadas deviam ser motivo de riso.
Eu mal cheguei perto e ele disparou, cético:
— Não sabia que seu estilo de se vestir havia mudado tanto também.
Ouvir sua voz aquietou o alarme insistente no fundo da minha mente, o ar fluiu mais naturalmente para o meu pulmão, tudo estava em ordem novamente. Caoticamente ordenado.
Contive o impulso de levantar seu queixo. Quanto tempo mais ele precisaria para qualificar minha roupa? Talvez já julgasse como uma academia me faria bem.
Cruzei os braços na frente do peito, desejando que fossem maiores para cobrir tudo.
— Você demorou. E não cumpriu com o combinado — resmunguei a fim de redirecionar sua atenção.
Olhou-me nos olhos.
— Ainda estamos seguindo seu plano. Você não disse nada sobre uma proibição de buscá-los no aeroporto. Não cheguei nem perto, se é isso que te preocupa.
— Não dizer nada não gera presunção de aceitação. Posso perguntar como conseguiu entrar?
— Posso perguntar por que eu não sabia que seria uma festa pra você?
— Era surpresa. Posso perguntar por que não me respondeu mais?
— Posso perguntar onde estão suas roupas? — arqueou a sobrancelha adquirindo a prerrogativa de me dar mais uma olhadinha.
— Você não responde minhas perguntas. Não sou obrigada.
Ele deu um sorrisinho de canto.
— Vamos discutir ou podemos ir ao trabalho, aniversariante? Seus convidados de honra vão entrar a qualquer momento, por isso te chamei aqui.
Sim, eu desejaria passar mais algum tempo a sós com ele.
Uma onda de nervosismo corroeu meu estômago. Levantei um dedo.
— Lembre-se que…
— Você está no comando, estou sabendo. Podemos? — me estendeu a mão.
Entornei meus dedos nos seus sem pensar duas vezes e ele foi me puxando para a sala de jantar. As veias da minha mão mandaram o aviso para meu coração, e obedientemente, ele acelerou.
— Então Hanna contratou mesmo Rihanna? — ele puxou o assunto, talvez para quebrar o clima de tensão.
— Não há alguma coisa que Hanna não possa fazer.
Saímos pela porta da sala de jantar para a parte de trás da casa onde ficava a piscina, apertando o passo para entrar na sala de estar.
— Justin.... E se alguém te ver?
— Pourquoi l'inquiétude?*
Arregalei os olhos pra ele.
— É o que?
— Je suis un homme de l'ombre** — continuei com o ponto de interrogação na cabeça. Ok, ele era fluente em francês, e o biquinho que fazia para falar o deixava irresistível, mas...? — Je m'appelle Jason, je suis le cousin de Justin Bieber***.
— Eu vou bater na sua cara.
Ele riu.
— Se perguntarem, digo que sou primo do Justin. Mas ninguém vai prestar atenção em mim, sei ficar invisível.
— De verdade?
Ele me encarou. Eu ri.
— Eu não duvido nada vindo de você.
Coloquei a mão na maçaneta da porta, Justin apertou mais forte minha mão, requisitando minha atenção.
— Vou ficar suficientemente perto, uma olhada sua e entro em cena, ok? Não subestime nada — instruiu com firmeza.
Assenti rápido com a cabeça e entramos. Justin soltou minha mão, esgueirando-se pelas beiradas da sala. Parecia injusto que tivesse que passar o dia todo longe dele criando as mais loucas paranoias para termos menos de cinco minutos juntos. No resto, por mais que eu estivesse preocupada, podia ver que todos estavam tão interessados em Rihanna apresentando Where Have You Been que mal notaram o movimento ligeiro. Serpenteei entre eles até chegar à Caitlin outra vez. Não fiquei tão surpresa ao ver Kurt dançando com Maya. Cogitei se deveria avisá-lo do caráter duvidável dela.
Caitlin relaxou os ombros, aliviada por se ver livre da companhia exclusiva de Maya. Ainda mais agora que sobrava de vela.
— E então? — me perguntou.
Discretamente dei uma olhada para onde Justin estava da última vez. Quase fiquei afobada por não encontrá-lo, mas em seguida o localizei no bar. Só então me lembrei:
— E o Ryan? — instantaneamente me senti culpada pela negligência.
— Bieber queria chegar primeiro para estar ao seu lado, Ryan vai entrar atrás deles no máximo daqui um minuto.
Soltei o ar devagar.
— E Hanna e Caleb?
Cait apontou para a escada onde os dois desciam depressa. Hanna agora usava uma saia de cintura alta e um cropped. Paralelamente a essa percepção, notei a porta da entrada se abrir. Prendi a respiração.
Completamente a vontade, Nicole e Jean adentravam a festa.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

One Love 26

— Precisamos conversar — Caitlin desabou na cadeira ao meu lado.
Vasculhei o café do aeroporto em busca de ouvidos bisbilhoteiros. Hanna se apoiava no balcão dividindo o peso sobre o Louboutin preto de sola vermelha sofisticado, apontava para o cardápio animadamente, afinal, era hora do café da manhã. Caleb ria ao seu lado quando pensava que ela não via. Ele nunca entendeu o espaço que a comida tinha em nossa vida. Por sua vez, Maya não saíra do banheiro, gastava todo seu tempo tentando ficar longe. O único a prestar atenção em nós duas era Ryan, me encarando do outro lado da mesa redonda de madeira, implicitamente já concordando com o que ela diria.
Cruzei os braços, um mecanismo de defesa.
— Pode falar.
— Quando foi que você ficou demente? — rosnou.
Olhei séria pra ela.
— Me diga você.
— Acho que foi quando decidiu confiar em Justin Bieber de novo e trazer Maya Baker com a gente. Você está caindo na conversinha dos maiores pilantras.
— Caitlin...
— Me conte exatamente o que está acontecendo entre você e Justin.
Caitlin começou a girar o saleiro, representando uma espécie de ampulheta. Me senti num interrogatório policial hollywoodiano. De fato, eles me olhavam como uma criminosa. Para uma interferência dessa gravidade partindo dos dois, minha situação podia estar pior do que eu mensurava. 
— Somos amigos — dei de ombros — Por que estão me olhando desse jeito?
Caitlin arqueou uma sobrancelha. Era uma pergunta óbvia, ela não responderia.
— Quem disse que são amigos?
— Nós dois. Ele propôs. Eu aceitei.
Suas órbitas quase pararam no cérebro quando revirou os olhos. Não pude deixar de me irritar um pouco com aquilo. Parecia que eu tinha enfiado o dedo estupidamente na tomada com os pés descalços para receber uma reprovação daquelas.
— Sabe o que é pior? Ver você se tornando dependente outra vez quando achei que melhoraria. Não achava que seria burra o bastante para cometer o mesmo erro duas vezes, mas olha onde estamos.
Ryan virou toda a cabeça em sua direção para que ela visse seus olhos repreensivos. Só que já era tarde. A onda de raiva se movimentava livremente por minha corrente sanguínea.
— Seu problema, Caitlin, é pensar que o mundo é um mais um. Na realidade, a resposta nem sempre é dois.
Névoa densa tomou conta de sua íris azul.
— O que a droga da matemática tem a ver com isso?
— É um jeito ameno de te dizer que o buraco é mais embaixo. Que não se trata apenas de aparência. E a porra do sentimento que me consome você nunca vai entender. Então não venha falar com tanta propriedade sobre o que não sabe. Se a sua forma de lidar com a volta dele é bloqueá-lo, ótimo, não vou meter o dedo. Mas o jeito que administro essa saudade que me matou não pode ser teu alvo de críticas também.
Caitlin endureceu o queixo. Não tinha argumento para me rebater, bem como não concordaria. Recostou na cadeira e elevou a cabeça, cheia de razão.
— E qual a sua brilhante argumentação em relação à Maya? — debochou.
Contive a vontade de gritar que nada daquilo lhe competia. Caitlin era linda, jovem, com uma carreira promissora de modelo, livre para fazer o que queria, possuía uma casa luxuosa em Boston e um carro, não estava diretamente obrigada a se envolver em todos os meus problemas, entrava neles por livre e espontânea vontade. Porém, eu sabia que a ausência do seu irmão lhe doía tanto que ela se agarrava ao mundo em que ele vivia, ao mesmo tempo que procurava em outras pessoas a fraternidade que tinha com ele. Me perguntei se preferia que fosse Christian de volta no lugar de Justin, e isso justificava metade da sua fúria.
— Annelise mesmo confirmou que ela está na merda. Me sinto responsável por essa situação — me apressei quando ela abriu a boca para falar — E já pensei que podem estar armando alguma juntas. Mas não vou deixá-la sair da minha vista agora que sabe que Justin está vivo.
Caitlin deu um sorriso ácido.
— Parece que deixou sair agora — levantou-se. Eu não sabia dizer se era para ir atrás de Maya ou por não aguentar mais ficar perto de mim.
Ryan tentou sem sucesso segurar sua mão assim que ela passou feito um furacão. Ele soltou um suspiro cansado, deixando seus olhos caírem em mim. Peguei um guardanapo no compartimento de metal e — me perdoem árvores — comecei a picotá-lo com a ponta dos dedos.
— Você sabe que esse assunto é delicado pra ela. Dá um desconto — pediu.
Reparei quanto era, no mínimo, fofo que ele tentasse aliviar o lado de Caitlin. Os dois tinham diferenças suficientes para os considerarmos opostos. A despreocupação e encarnação da ira em pessoa. Dava pra ver no que se completavam, trazendo aquilo que o outro estava em falta. Foi impossível não pensar se eu e Justin já, pelo menos, fomos assim. O que acrescentamos no outro? Tirando toda aquela metáfora passada de inverno e outono, éramos compatíveis? E se eu agora estava mais para inverno, nem a teoria podia nos acobertar de uma possível verdade: Caitlin estava certa em pensar que nossa coexistência se dotava de toxidade.
Eu não conseguia pensar em uma conclusão sozinha. Rasguei de uma vez todo o papel e joguei na mesa com um grunhido.
— E você? Não quer jogar acusações também?
Ryan franziu os lábios, relutante.
— Tem certeza que não vai jogar saleiro na minha cara se eu disser o que penso?
Afastei o saleiro de mim como prova. Ainda assim, ele pensou um pouco antes de falar. Coisa esta que não era do seu feitio.
— Veja, eu gosto muito da Caitlin, mas sei que tenho uma vida toda além dela. Se for uma coisa muito obsessiva, vai acabar fazendo mal para nós dois. Não estou querendo comparar vocês com a gente. Só... toma cuidado com vício porque leva à overdose — ele se aproximou um pouco mais de mim, abaixando a cabeça e a voz — Ouvi dizer que overdose mata. Só não conta pros clientes dos traficantes pra não cortar o barato.
Eu ri porque só Ryan conseguia fazer coisas serias ficarem engraçadas.
— Acho que eles sabem e mesmo assim compram.
Ele bateu na mesa e apontou para mim, empolgado.
— É isso o que estou dizendo! Não seja esses caras.
Assenti, fingindo uma expressão séria.
— Está dizendo para eu me afastar do Justin, agora que eu descobri que ele está vivo, porque posso morrer de overdose?
Ele meneou a cabeça.
— Cara, eu amo o Bieber como a um irmão. Ele é o cara. Mas um cara com cabeça mole que faz tudo o que dá na telha. Ou seja, tem que aprender a trabalhar com ele pra que não folgue muito. Todos trabalhamos muito mal para ele chegar a fazer uma coisa estupida dessas de fingir estar morto pra gente. Claro que ele afirma ter feito isso por um gesto altruísta, porque se preocupa com você. Só que temos que calibrar. Eu ainda estou puto. E se dissesse que gosto da ideia de vocês dois juntos vou estar mentindo. Você é muita areia pra esse cara de pau. E eu vou quebrar a cara dele por ter vacilado com um mulherão da porra desses. Mas você é adulta pra saber o que quer e eu vou te apoiar de qualquer forma. É isso, cara.
Possivelmente, meu coração se derretia naquele instante conforme a ponta dos lábios se esticava. Ryan. Como eu podia definir Ryan Butler?
— Quantas vezes você fala a palavra “cara” num dia?
Ele abriu um sorriso largo.
— Cara... quantas vezes você quiser, bebê — piscou.
Eu ri, expulsando a umidade dos meus olhos.
— De qualquer forma, posso cultivar uma amizade com ele tão saudável quanto a sua.
Agora ele gargalhou.
— Tá bom. Mas, sério, eu vou matar qualquer desgraçado que fizer mal pra você, e Justin não está isento dessa — fez uma expressão maldosa — Muito menos Annelise. Desde o início repudiei essa aliança com ela. Mas deixa ela perder a utilidade pra ver o que acontece.
Por essas e outras Ryan era uma das minhas pessoas favoritas no mundo. Estendi a mão para ele.
— O que seria de mim sem você?
— Literalmente nada — respondeu presunçoso, beijando as costas da minha mão — E sim, eu acho que o Bieber está realmente a caminho de Boston. Ele está louco para resolver isso de uma vez — adivinhou minhas profundas preocupações.
— Sei como ele quer se ver livre dessa história. Então o que garante que não esteja indo para a Califórnia?
— Eu disse que cortaria as bolas dele com canivete enferrujado e jogaria para os tubarões comerem. Um homem dá muito valor na sua genitália.
Fui obrigada a tapar a boca para não explodir o café com minhas gargalhadas.
— Já que vocês não querem contar sobre a volta dele, essa foi a melhor decisão. Nós no voo comum e ele num jatinho particular. Se bem que eu sinto mesmo uma falta tremenda de um jatinho — Ryan fez uma careta.
Eu entendia porque Justin tinha um jatinho, não é como se ele pudesse desfilar livremente por aí com sua cara de defunto enquanto viajava entre estados e países. Mas não me parecia sensato deixá-lo ir para Boston separado de todos nós. A lista enorme de motivos para isso era mais clara que água cristalina, enumerá-los me levaria o dia todo. O ponto de encontro seria na antiga casa de Caitlin. Previsivelmente, ele chegaria mais cedo. Tomando como possibilidade que realmente estivesse indo para Boston, o que faria até que chegássemos lá também me preocupava. Como se eu precisasse de mais do que apenas estar longe dele para ficar inquieta.
— Alguém disse jatinho? Caleb não quis vir com o de Bryan — Hanna afastou as cadeiras com os quadris, sentando-se no lugar em que outrora estivera Caitlin. Nas mãos equilibrava uma bandeja com Waffles e torradas, Caleb uma jarra de suco de laranja e outra pequena de café. A mistura atrativa do aroma quase alcançou meu estômago.
Caleb se acomodou ao lado de Hanna, Ryan ficou visivelmente isolado.
— Eu estava dizendo que quero comprar um — respondeu.
— Como você vai conseguir dinheiro para um jatinho trabalhando numa boate? — Caleb perguntou cético.
Chutei o pé dele por baixo da mesa.
Ryan forçou um sorrisinho.
— Não duvide da minha determinação — e então levantou — Vou atrás da Caitlin.
Esperei que ele saísse para lançar um olhar feio ao meu irmão.
— Muito soberbo você, não?
Ele pegou uma xícara de café tranquilamente.
— Só disse uma verdade. Com que dinheiro ele planeja comprar um? Acaso está planejando outra fonte de renda?
— Se quer saber se ele voltou ou planeja voltar para a vida sanguinária, a resposta é não.
— Sou um monstro por não querer minha irmã andando com assassinos?
— Achei que depois de saírem ontem a noite estavam se dando melhor. Ryan não é uma pessoa ruim.
Caleb assentiu vagamente, tomou um gole de café e pegou uma torrada com o guardanapo. Hanna se ocupava em recolher a chacina que eu tinha feito na mesa.
— É isso que planejo ver.
Apoiei o cotovelo na mesa e descansei a cabeça na mão. Aquela intriga entre os quatro estava me dando fadiga.
— O que aconteceu que você ainda não atacou o waffle? — Hanna me perguntou, pegando um pratinho para si.
— Estou meio sem fome.
Ela me ignorou, colocando um prato na minha frente também. Depois de me servir com um Waffle, praticamente encheu um copo de suco de laranja.
— Gosto mais da Faith que come. Não me deixe sentir como uma baleia sozinha. Você disse que ainda somos amigas. 
Não seria Hanna se não tivesse pelo menos uma chantagem emocional no dia. Para deixá-la mais contente, empurrei tudo aquilo para o meu estômago, e percebi que realmente isso lhe deixou mais à vontade, como se tudo voltasse a ser como antes. Consequentemente, Hanna iniciou seu costumeiro tagarelar, não deu um segundo sequer de descanso para a boca, se não falava, mastigava.
Para alguém que sentia saudade da amiga, me perdi mais vezes do que posso contar nos assuntos. Entretanto, eu sabia dizer quase todos os temas: reclamações em geral das matérias da faculdade, destaques nas roupas das nossas colegas (ex colegas para mim), sua aproximação inesperada com algumas delas (reforçando que nenhuma chegava aos meus pés), discussões imotivadas que andava tendo com sua mãe, e estranhamente, não houve uma citação sequer sobre garotos. Esse, entre comida e roupas, sempre foi o assunto preferido de Hanna. Depois de meses ela ainda não tinha um crushzinho para me contar?
— Sei... Mas e os calouros desse ano? Foi mesmo uma leva tão ruim assim? — um dos nossos hobbies todo começo de semestre era analisar a carne nova para reajustar a lista hierárquica de Hanna.
Ela subiu a escada para o avião atrás de mim, e mesmo assim vi seu dar de ombros.
— Não reparei neles — desdenhou.
Cumprimentei as comissárias e o comandante com um “bom dia” muito bem planejado para soar simpático. Eu depositara minha vida na mão dessas pessoas, conquistar sua empatia era importante. Uma vez dentro do avião, me senti grata por Caleb e Hanna terem protestado pela primeira classe — com a promessa de pagar a diferença para quem não tivesse dinheiro suficiente. Aviões já são claustrofóbicos num geral, eu precisava de mais espaço para respirar. A desvantagem era que Maya se sentaria ao meu lado por praticamente três horas. Eu não podia jogar essa responsabilidade para mais ninguém.  
— Desde quando você não repara em homens?
Minha poltrona era a primeira do lado direito, bem perto da janela, paralela a de Ryan e Caitlin no lado esquerdo; Hanna e Caleb atrás de mim. Sentei-me no tecido azul afofado, virando a cabeça para trás a fim de receber a resposta. Com os olhos em qualquer lugar menos em mim, ela elevou a cabeça, se acomodando em seu lugar.
— Você deve estar me confundindo com outra amiga sua.
Mensurei o tom defensivo de Hanna e acabei concluindo que ela não queria esse tipo de conversa em público. Não que se importasse com isso antes. Mas talvez tivesse conhecido alguém especial e quisesse me contar depois com mais calma. Preferi deixar para lá e me contentei com meu lugar, me voltando para a televisão retangular à minha frente. Respirei fundo, já sentindo os nervos pipocarem de tal modo que pareciam tomar conta da minha garganta numa clara ameaça de fechá-la. Nunca fui muito a favor de altura. Entrar numa caixa metálica voante a cerca de onze mil metros — repito, onze mil metros — do chão, não me parecia muito inteligente.
Para ajudar com a inquietação, assim que a comissária passou oferecendo os lanches, pedi um café do Starbucks e um chocolate. Balançar meus pés no ar se mostrara uma atividade ineficaz para fazer. Mastigar — embora já houvesse comido, e sem fome mesmo — podia ser boa ideia para evitar ranger meus dentes. Ainda descontente, sem encontrar algo me satisfizesse na televisão de onze polegadas, conectei meu celular com o Wi-Fi e chequei meu iMessage. Para um quase alivio instantâneo, havia uma mensagem do número que Justin salvara no meu celular noite passada.
“Estou a caminho de Boston. Seu voo já saiu, certo?”
Respondi:
“Certo. Duas horas e quarenta de voo. Eba.”
Meio minuto depois chegou sua resposta:
“Você está sentada ao lado de Maya?”
Dei uma olhadinha de esguelha para minha companheira. Ela permanecia entretida com The Voice, tomando uma taça de vinho. Os ombros encolhidos contrastavam com sua fachada relaxada. Então eu ainda não me sentia ameaçada por sua presença.
“Sim.”
“Dê um tiro nela por mim.”
“Se você der um em Annelise.”
“Já te disse: Precisamos que ela nos acoberte até chegarmos à Boston, depois disso, temos umas contas a acertar.”
Bufei. Umas contas a acertar. Que tipo de contas? Lençol + roupas no chão = Justin e Annelise reatando?
Não se eu pudesse impedir.
“Vai ter que entrar na fila.”
“Se quiser podemos fazer juntos.”
Abri um sorrisinho e comecei a digitar:
“Podemos fazer muitas coisas juntos.”
Por estar com um pouco de juízo, apaguei e mandei apenas: “Combinado.”.
Eu não havia realmente pensado no que estava prestes a fazer e no que aquilo significava. E mesmo que não fosse admitir em voz alta em hipótese alguma, tinha conhecimento de que meu plano era extremamente impulsivo e precipitado. Levar Maya para Boston, não parecia só arriscado, como burrice também. Como complemento, seria a primeira vez que veria Eleanor e Bryan depois de todo aquele tempo. Me afastei deles porque os julguei parcialmente responsáveis por toda a merda que havia acontecido comigo. Mesmo com Justin de volta, não mudava sua negligência quanto a nossa segurança. A notícia da festa só mostrava que não haviam mudado. Tudo o que importava para os dois era o status social elevado, vanglória e exibicionismo. Por outro lado, de Flê e Etienne eu sentia falta.

— Meu Deus do Céu!!! — Hanna deu pulinhos quando descemos no aeroporto, agarrando meu pescoço com um braço — Boston você está sentindo isso?! O ar até está diferente agora que esse lugarzinho medíocre tem Hanna e Faith reunidas no solo em que tudo começou! Espera só a vibração que o shopping vai sentir!
Desvencilhei-me de seu braço sufocante.
— Hanna, eu não vim aqui fazer compras — repreendi.
Ela não perdeu a animação.
— Nós vamos para a festa, você tem que se arrumar, precisa de um vestido perfeito, a maquiagem, as unhas...
— Será que ela sabe que estamos num caso de vida ou morte aqui? — Caitlin comentou com Ryan propositalmente alto.
— Se vamos morrer, vamos morrer com glamour.
Caleb riu e imperceptivelmente Maya concordou.
— Eu não vou a shopping nenhum — retruquei.
Hanna me olhou séria.
— Faith, você precisa estar vestida para matar, não vou te deixar sabotar sua volta triunfante.
— Não é uma volta.
Finalmente, suspirou exasperada.
— Caleb, faça alguma coisa.
Ele levantou as mãos, imparcial.
— Temos coisas mais importantes para fazer do que brincar de modelos da Victoria Secret's. Sem ofensa, Cait.
— Não me ofendi, dá mesmo muito trabalho pra conciliar com outra coisa.
Hanna revirou os olhos, rapidamente agarrando meu braço para me puxar longe dos outros. Me encarou fixamente e esbravejou:
— Nós já planejamos tudo de cabo a rabo, não há o que fazer a não ser esperar dar a hora da festa. Você prefere ficar se retorcendo de agonia entre quatro paredes a passar um tempo comigo? Por que tenho a impressão de que tenta passar o máximo de tempo longe de mim?
— Han, não é assim.
— O que eu te fiz? — perguntou ressentida.
Relaxei os ombros. Se ela soubesse que Justin estava vivo certamente entenderia porque eu me afastava. Tudo o que eu queria era ficar perto dele e garantir que nunca mais me deixasse. Da forma que fosse, eu só precisava que ele ficasse. Aquelas poucas horas longe dele já estava me deixando com falta de ar. E confesso que meu passatempo predileto no avião foi na verdade reviver infintas vezes a noite passada. Aquela massagem dos deuses seguida de uma conversa despretensiosa até que adormecêssemos como o havíamos feito no dia anterior — infelizmente tirando a parte de acordar em cima do seu peito desnudo.  
Vislumbrei um olhar significativo de Ryan sobre o ombro de Hanna e peguei a mensagem. Queria me lembrar da obsessão que já me repreendera. Quase esperneei como uma criança birrenta diante de seu fracasso. Ambos estavam certos. Justin dissera que eles ainda não estavam no aeroporto, não tirara os olhos do monitor para rastreá-los. De Los Angeles para Boston são sete horas, então se pegassem um voo nesse momento não chegavam antes das cinco. Hanna merecia nosso tempo juntas e eu também. De algum modo, ajudaria a colocar um pouco da cabeça no lugar.
— OK. Vamos — cedi de uma vez antes que pudesse desistir.
Feito uma criança, os olhos de Hanna se iluminaram imediatamente.
— Mas eu vou ter que levar Maya comigo — avisei. Sua perda de entusiasmo com essa informação não foi significativa. Ela não podia me dar mais motivos para desistir, minha convicção diminuíra em 99,9%.
— Não tem problema — cintilou — Caleb! — ela se voltou para o grupo paciente — Vá para a sua casa e ajude com os últimos detalhes. Nós vamos ao shopping arrumar roupas decentes.
— Caitlin, vá com elas, eu vou pra sua casa e... espero vocês lá — Ryan se pronunciou.
Caitlin e Hanna se olharam, diga-se de passagem, um pouco desgostosas.

Mal havíamos entrado no uber e Justin me mandou outra mensagem, disparando meu coração:
“Depois você me diz que não tem péssimas ideias.”
Pelo que eu havia estudado no ensino médio, os efeitos daquela mensagem apontava para uso frequente de heroína. Sua mini-bronca era mais bem vinda do que ele pensava. 
“Já chegou em Boston?” — desconversei.
“Estou na casa da Caitlin. Eu cumpro o combinado.”
E assim eu esperava que fosse em relação à Annelise. Mesmo que uma parte de mim se recusasse a acreditar somente em suas palavras, já podia me sentir parcialmente aliviada com sua afirmação de estarmos no mesmo território. Por outro lado, angustiada por estar tomando justamente o caminho contrário dele.
“Não faça nada fora do combinado, Justin, Ryan está a caminho.”
Ryan havia me prometido ficar de olho nele e me mandar uma mensagem assim que chegasse à casa para confirmar sua localização. Se não tivesse o feito eu estaria mais perturbada do que fiquei durante as compras.
Andar no shopping atrás de uma roupa ideal pode ser extremamente desgastante se sua cabeça não estiver totalmente focada e preparada para isso. Esforcei-me exclusivamente por conta de Hanna. Ela estava tão animada que mal andava, corria. Imaginei dois grilhões colados aos pés de Caitlin, seguindo-nos com uma nuvenzinha negra sobre a cabeça disparando raios e trovões. Maya já se sentiu em seu habitat natural. A partir do momento em que pisamos no centro comercial salpicado de pessoas, lojas perfumadas com rosas e cheiro de roupas novas e ar condicionado no ponto certo, notei certo músculo rígido em sua testa descansar. Foi bom porque eu mesma estava me vendo estourando-o com uma agulha.
— Você não pode detestar todos os vestidos que eu te mostro — Hanna queixou-se, segurava pelo menos uns cinco cabides na mão direita e mais quatro na esquerda — Pelo menos tem de prová-los.
Joguei a cabeça para trás, cansada só de imaginar o “tira e põe roupa” em looping. Entretanto, não adiantou discutir. A partir daquele instante, sentadas no sofá vermelho longo fora das cabines de prova, Hanna, Caitlin e Maya me viram desfilar por infinitas vezes. Não foi tão ruim quanto eu pensava. Tudo bem, a parte de vestir e tirar os tecidos elegantes era extremamente desgastante — e precisei da ajuda de Hanna em algumas vezes —, mas, encontrei aí oportunidade de integrá-las, pedindo a opinião das três, embora já soubesse a minha. Elas podiam abrir uma loja em conjunto, todas adoravam a arte de se vestir, Caitlin sabia exatamente o que falava — aprendera dos vários estilistas pelos quais passara. Conforme eu posava, alguns comentários entre elas começaram a surgir sem que percebessem.
— Vocês não acham que a pele dela casa perfeitamente com amarelo? — Hanna perguntara.
Elas me analisaram e assentiram.
— Com certeza. Mas esse ficou meio sem graça. Faith pode ser mais elegante do que isso — Maya argumentara. Foi a primeira coisa que falou de livre e espontânea vontade em horas.
— Precisamos de outros vestidos. Vamos nós três à caça. Faith, não saia daí — Han comandou.
— Eu estava pensando... — comecei a dizer, colocando as mãos na cintura e olhando a pilha de descarte de vestidos. Assoprei os cabelos que faziam cócegas na minha cara para terminar — Eu não quero vestir uma coisa assim.
Recebi três pares de olhos descridos.
— Como assim?
— Isso tudo parece muito “Eleanor”. Sou independente agora. Quero alguma coisa que...
— Que ela vá desaprovar — Hanna completou, desafiando-me a contrariá-la.
Pensando bem, eu nem ao menos queria encontrar argumentos para contestá-la. Precisava provar para meus genitores que eles não eram meus donos. Precisava provar que sou um sujeito pensante, de opiniões próprias e dignidade personalíssima. 
— Eu posso ter uma ideia — Maya disse a meia voz. 
Ao não encontrar oposição, enfiou-se entre os cabides, escolhendo entre as roupas durantes minutos fugazes. Nos limitamos a observá-la, nos deparando com sua presunção ao apresentar seus resultados.
— O que acham?
Quase foi possível ouvir o ruído de três bocas se abrindo de perplexidade.
— É vestimenta de uma rebelde sem causa. Com certeza. Eleanor ficará furiosa. Você tem certeza de que quer fazer isso na festa de aniversário dela? Não é todo dia que se comemora quarenta e cinco anos.
Hanna produziu o efeito contrário que desejava. Visualizei Bryan e Eleanor espumando diante de seu público ao encarar a filha que criaram debaixo de tantas regras de etiqueta vestida daquela maneira. O sorriso em meu rosto foi involuntário.
— Você disse vestida para matar, não foi, Han?